A Fiserv, maior processadora de pagamentos do mundo, inaugura nesta semana sua primeira fábrica fora da Ásia em Betim, Minas Gerais, com capacidade para produzir 100 mil maquininhas da plataforma Clover por ano, dentro de um investimento de US$ 100 milhões no Brasil até 2027.
Quarta planta global, custo 30% menor e expansão para a América Latina
A unidade de Betim é a quarta fábrica global da Clover e a primeira construída fora da Ásia, onde a empresa produzia todos os seus terminais até então. Com a fabricação local, a Fiserv projeta reduzir em 30% o custo dos equipamentos em relação aos modelos importados da China. O objetivo é dobrar a base no país: dos atuais 100 mil para 200 mil terminais até o fim de 2026.
“A fábrica chega em um momento em que o produto já está amadurecido no Brasil e apresenta alguma escala. Começa a fazer sentido fazer um investimento maior para produzir localmente e ampliar o atendimento no país”, disse Ricardo Daguani, CEO da Fiserv no Brasil, ao NeoFeed.
O modelo fabricado localmente é o Clover Flex, que combina pagamento e ferramentas de gestão no mesmo aparelho. Mais da metade da receita da Fiserv no Brasil vem do mercado de adquirência, onde a empresa atua tanto com venda direta quanto via parceiros institucionais. Com a produção local estabilizada, a próxima etapa prevista é expandir a plataforma para México e Argentina. O pacote de US$ 100 milhões cobre tanto a construção da fábrica quanto iniciativas de desenvolvimento de tecnologia até 2027. A Fiserv vem ampliando apostas em stablecoins e produtos digitais em paralelo no mercado global.
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Pix no terminal e o peso dos juros sobre o crescimento
Para Daguani, uma das principais avenidas de crescimento está na captura de pagamentos via Pix pelo terminal físico. Dados do Banco Central mostram que 7,4 bilhões de transações foram feitas via Pix em março, mas apenas 8% usaram QR-Code estático e 11% inseriram a chave manualmente, enquanto a maioria das operações passa pelo aplicativo do banco, fora da maquininha.
“A gente tem a tecnologia para capturar essa transação. Ainda há muita transferência no Brasil com a chave Pix direto pelo celular, em vez de usar a tecnologia da maquininha, que é muito segura. E, para o estabelecimento, é muito melhor estar no dispositivo, para facilitar seu controle financeiro”, afirmou o CEO.
No plano de distribuição física, a empresa abriu sua primeira loja em Guarapari (ES) no ano passado como vitrine de todos os modelos Clover, com expansão prevista para São Paulo. No campo macro, Daguani aponta a Selic em 14,75% ao ano como o principal fator de risco ao crescimento da carteira: “Taxa de juros alta não ajuda o crescimento, porque reduz crédito […] A gente espera que os juros caiam, mas temos que nos adequar ao cenário”, disse o executivo.
O que observar
A produção local de hardware por uma processadora global estabelece um precedente no setor: se a equação de custo fechou com 100 mil terminais por ano, outros participantes do mercado vão avaliar teses similares em um país com estimativa de 23 milhões de maquininhas em operação. O ponto a acompanhar é se a redução de 30% no custo se converte em pressão de preço sobre concorrentes ou é absorvida como margem pela própria operação.
No eixo do Pix, a disputa pelo QR-Code no ponto de venda é estrutural: quanto mais transações migrarem do aplicativo bancário para o terminal físico, maior o controle e a receita para quem opera o equipamento. A velocidade dessa migração vai depender do incentivo que estabelecimentos comerciais receberem para orientar o cliente ao terminal, em vez do celular. Quanto à expansão regional, o ritmo em México e Argentina vai depender de quanto a lógica de produção concentrada em Betim pode ser replicada com eficiência em outros mercados.