Por Edson Santos
Em pagamentos, a gente sempre repetiu uma frase com um sorriso de quem sabe: um ano é uma eternidade no setor. O dinamismo nunca foi novidade. O que mudou — e ficou especialmente visível entre 2025 e 2026 — foi o encurtamento do caminho entre ideia, anúncio e uso real.
Em pagamentos, o futuro não chega. Ele se encaixa no presente.
O comércio agêntico (agentic commerce) virou um bom marcador desse fenômeno. Não por ser o único tema do período, mas porque ele reúne, numa mesma onda, tudo o que acelera o nosso mercado: promessa de conveniência, pressão por segurança e a necessidade de coordenação entre muitos participantes — lojistas, plataformas, bancos, redes, carteiras e antifraude.
Da ideia ao pagamento real: dá para medir no cronômetro
Se a gente quiser colocar datas nessa história, dá para começar por um marco objetivo. Em 29 de abril de 2025, a Mastercard anunciou o Mastercard Agent Pay como um “Agentic Payments Program” — um sinal claro de que o tema começava a ser tratado como algo operável, não apenas teórico.
A partir daí, o tema ganhou corpo em discussões, artigos, posts e apresentações — meu primeiro artigo sobre isso saiu em maio de 2025, quando ainda era novidade.
O que torna 2026 especial não é “começar” a história. É deixá-la incontestável, com comunicações públicas de transações concluídas em ambiente real.
Quando um tema vira ecossistema, o setor muda de marcha
Em pagamentos, temas surgem o tempo todo. O que muda o ritmo é quando o assunto começa a ganhar forma como camada operacional do ecossistema: protocolos, padrões, integrações e compromissos públicos de adoção.
Foi isso que vimos em 2025: o assunto saiu do “agentes comprando” e foi para as perguntas que sempre deixam pagamentos sério — como preservar segurança, controle e confiança quando um novo tipo de automação entra na jornada.
E aqui entra a parte que prova a compressão do tempo com fatos.
Em 14 de outubro de 2025, a Visa anunciou o Trusted Agent Protocol.
Em 18 de dezembro de 2025, ela já comunicava centenas de transações iniciadas por agentes, em ambientes controlados e em produção.
Dá para medir no cronômetro, não é só percepção: 65 dias entre 14/out/2025 e 18/dez/2025.
Linha do tempo mínima (para não deixar o argumento no ar)
- 29/04/25 – anúncio do Agentic Payments Program (Mastercard Agent Pay).
- 14/10/25 – anúncio de protocolo para viabilizar interações seguras com agentes no comércio (Visa).
- 18/12/25 – comunicação de centenas de transações iniciadas por agentes (Visa).
- 28/01/26 – anúncio de transações agênticas autenticadas em rede (Mastercard, Austrália).
- 02/03/26 – anúncio de pagamento end-to-end ao vivo executado por agente em framework bancário regulado (Santander + Mastercard).
- 12/03/26 – anúncio de transações end-to-end com agentes em mercados da América Latina (Santander + Visa).
O que importa aqui não é “quem chegou primeiro”. É a fotografia do período: o intervalo entre as etapas está menor.
Em pagamentos, transação é divisor de águas
Existe uma regra simples no nosso mercado: quando vira transação real, a conversa muda.
Porque inovação, em pagamentos, não termina quando alguém consegue pagar. Ela começa ali.
Assim que algo sai do piloto e vira pagamento de verdade, o setor imediatamente olha para o que vem depois: contestação, disputa, evidências, responsabilidades e como o cliente será atendido quando houver erro ou desacordo.
E é por isso que esse período chama atenção: o que antes vinha em sequência longa agora está acontecendo quase em paralelo. A experiência avança — e, logo atrás, já surgem mecanismos para registrar autorização, reduzir ambiguidade e tornar a operação mais confiável quando a automação entra na jornada.
Não é medo. É método — e é por isso que eu gosto tanto deste mercado
Eu não escrevo isso com alarme, nem como crítica. Escrevo como alguém que é, genuinamente, apaixonado por pagamentos.
O setor de pagamentos sempre me fascinou por um motivo simples: raramente passamos muito tempo fazendo exatamente a mesma coisa. Sempre aparece algo novo para aprender, testar, implantar e estudar. Às vezes é evolução incremental. Às vezes é inovação disruptiva. Mas quase sempre é concreto o suficiente para exigir atenção — e, principalmente, humildade intelectual.
O risco real não é “medo de ficar de fora”. É mais silencioso: tentar acompanhar um setor de ciclos curtos com hábitos de ciclos longos — como se atualização fosse um evento anual, e não uma rotina.
Eu continuo apaixonado por pagamentos por isso: nada fica parado. Mas essa beleza tem um preço — o de estar sempre aprendendo. O tempo encolheu, e a única resposta razoável é cultivar um hábito humilde e calmo de atualização contínua.
A pergunta que deixo é: O que você faz para não depender apenas do resumo do mês — e perceber as viradas enquanto ainda estão acontecendo?
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Edson Santos é fundador e sócio da Colink Business Consulting, conselheiro, advisor e autor, com mais de 25 anos de atuação em meios de pagamento e serviços financeiros. Escreveu Do Escambo à Inclusão Financeira – A evolução dos meios de pagamento e é coautor de Payments 4.0 – As forças que estão transformando o mercado brasileiro.