Por Murilo Rabusky, Diretor de Negócios da Lina Open X
O crédito continua crescendo no Brasil. A carteira avançou 10,2% em 2025 e a expectativa é de que mantenha um ritmo robusto de expansão em 2026, segundo a Febraban. Mas, diante de um mercado formado por consumidores com perfis financeiros cada vez mais diversos, cresce também um desafio para as instituições: como tomar decisões de crédito cada vez mais precisas, equilibrando expansão da carteira, controle da inadimplência e uma experiência mais fluida para o consumidor?
Durante décadas, a resposta esteve concentrada em modelos de score baseados em informações cadastrais, histórico de pagamento e registros em bureaus de crédito. Esses instrumentos continuam sendo fundamentais para a gestão de risco, é claro, mas já não respondem sozinhos às necessidades de um mercado cada vez mais digital e dinâmico.
Análise de crédito baseada em inteligência de dados
É justamente nesse ponto que o Open Finance começa a promover uma mudança estrutural. Mais do que permitir o compartilhamento de informações entre instituições financeiras, o ecossistema cria uma nova camada de inteligência para a análise de crédito ao incorporar dados comportamentais autorizados pelo próprio consumidor. Em vez de observar apenas o histórico financeiro, passa a ser possível compreender como esse cliente administra seus recursos no presente.
Isso significa analisar aspectos como recorrência de renda, estabilidade do fluxo financeiro, padrões de gastos, comprometimento da renda e movimentação das contas. São informações que ajudam a contextualizar a capacidade de pagamento de forma muito mais dinâmica do que um retrato estático obtido em um único momento.
É importante pontuar que não se trata de substituir os modelos tradicionais de score, mas sim de complementá-los. Afinal, um consumidor pode apresentar pouco histórico de crédito e, ainda assim, manter uma vida financeira organizada e estável. Da mesma forma, um score elevado nem sempre reflete mudanças recentes na realidade financeira daquela pessoa. A combinação entre dados históricos e comportamentais amplia a capacidade de avaliação e torna a decisão mais aderente ao contexto de cada cliente.
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Evolução na análise de crédito acompanha transformação digital
Essa evolução acompanha uma transformação mais ampla do sistema financeiro brasileiro. De acordo com os dados da Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, 83% das transações bancárias realizadas no país já acontecem por canais digitais, sendo 78% feitas pelo celular. Quanto mais digital é a relação entre consumidores e instituições financeiras, maior também é a disponibilidade de sinais que permitem compreender o comportamento financeiro de forma contínua e, naturalmente, enriquecer a análise de risco.
Os benefícios dessa inteligência vão além da concessão do crédito. No onboarding, por exemplo, o compartilhamento consentido de dados via Open Finance reduz a necessidade de documentos como comprovantes de renda e extratos bancários, tornando o processo mais simples e menos burocrático. Em diferentes operações do mercado, essa abordagem já demonstra impactos positivos na conversão de propostas justamente por reduzir etapas e facilitar a jornada do cliente.
Ao longo do relacionamento, os dados também permitem uma gestão mais eficiente da carteira. Acompanhando mudanças no comportamento financeiro, as instituições podem revisar limites de crédito, oferecer produtos mais aderentes ao perfil do cliente e até aperfeiçoar suas estratégias de cobrança.
Esse último ponto merece atenção especial. Historicamente, grande parte das ações de cobrança foi estruturada em calendários fixos e campanhas massificadas. O uso de dados comportamentais permite uma abordagem diferente: identificar momentos em que o consumidor apresenta maior capacidade financeira para regularizar seus compromissos, aumentando a eficiência da recuperação de crédito e reduzindo atritos na experiência. Soluções já disponíveis no mercado, como o Data Link, da Lina Open X, demonstram como o Open Finance pode apoiar esse tipo de estratégia sem alterar a dinâmica da jornada do usuário.
Estamos assistindo a uma mudança importante na própria lógica da análise de risco. O mercado não pergunta apenas “como esse cliente se comportou até aqui?”, e passa também a responder “como ele está se comportando agora?”. Essa diferença parece sutil, mas representa uma evolução significativa na qualidade das decisões.
O futuro da análise de crédito dificilmente será definido por um único indicador. A tendência é que modelos complementares convivam de forma cada vez mais integrada, reunindo histórico, contexto e comportamento para produzir avaliações mais completas. O Open Finance oferece a infraestrutura necessária para essa evolução, permitindo que bancos, fintechs e empresas desenvolvam modelos mais sofisticados, capazes de ampliar a eficiência, favorecer a inclusão financeira e construir relações mais sustentáveis entre instituições e consumidores.