O BTG Pactual assinou documentos vinculantes para a aquisição do Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo. A operação ainda depende de um empréstimo do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e de um processo competitivo previsto pelas novas regras do Conselho Monetário Nacional, mas já conta com o aval do Banco Central.
Estrutura da transação BTG-Digimais
| Condição |
Status |
| Documentos vinculantes |
Assinados |
| Empréstimo do FGC |
Pendente |
| Aporte de Edir Macedo |
Previsto (valor não divulgado) |
| Leilão competitivo (novas regras CMN) |
A ser lançado |
| Aprovação do Banco Central |
BC vê com bons olhos |
Condições precedentes para fechamento. Fonte: Valor Econômico
Digimais: um banco sob pressão do regulador
O Digimais vem sendo acompanhado pelo Banco Central há anos. Em setembro de 2025, segundo dados do sistema IFData, o banco tinha R$ 9,297 bilhões em ativos, patrimônio líquido de R$ 420 milhões, carteira de crédito de R$ 1,884 bilhão e portfólio de títulos e valores mobiliários de R$ 2,285 bilhões. O regulador exigiu reforços de capital ao longo dos últimos anos, incluindo um aporte de R$ 250 milhões feito por Macedo no fim de 2025. Antes do BTG, o controlador chegou a negociar com o Nubank e a anunciar um acordo com o Bluebank, de Maurício Quadrado, que não avançou.
“A celebração dos documentos visa estabelecer um valor de referência e determinadas condições para a alienação da totalidade das ações do Banco Digimais”, disse o BTG em comunicado ao mercado. Pela mecânica de stalking horse prevista nas novas regras do FGC, a proposta do BTG funciona como piso: o fundo precisa abrir um leilão e verificar se há ofertas superiores. A expectativa do mercado, segundo o Valor Econômico, é que o BTG leve a operação, dado seu conhecimento prévio do ativo.
FGC sob pressão após caso Master
O empréstimo do FGC é a peça que ainda não está fechada. O fundo teve metade de seu caixa consumido pelos desdobramentos do caso Banco Master e já havia recebido um pedido de empréstimo de R$ 4 bilhões do BRB. Recentemente, o FGC também liberou R$ 6 bilhões para 312 mil credores do Will Bank. A transação do Digimais deve ser a primeira operação sob as mudanças implementadas pelo CMN em janeiro de 2026, que ampliaram os poderes do fundo para atuar antes da liquidação e exigiram processo competitivo para alienação de ativos.
O Digimais ainda enfrenta uma disputa judicial com o fundo EXP 1, da gestora Yards, envolvendo uma carteira de R$ 659,8 milhões cedida em março de 2025, composta por créditos originados pelo Master e pelas empresas Reag e Fictor. O banco, criado em 1981 pela família Renner, passou ao controle de Macedo em 2013, quando a compra exigiu um decreto da presidente Dilma Rousseff por ele ser considerado investidor estrangeiro pelo BC, dado seu domicílio no exterior.
O que observar
A operação testa pela primeira vez as novas regras do CMN para o FGC. Se o leilão competitivo atrair outras propostas, abre precedente para um mercado secundário mais transparente de bancos em dificuldades. Se não atrair, consolida a lógica de que stalking horse em ativos bancários tende a confirmar o primeiro ofertante, especialmente quando este já conhece a operação por dentro. O resultado pode definir o modelo para futuras resoluções no sistema financeiro brasileiro.
Para o fundo garantidor, o desafio é de capacidade: com caixa reduzido pelo caso Master, empréstimos pendentes a outros bancos e garantias bilionárias recém-honradas, a pergunta é se consegue sustentar múltiplas operações de suporte simultaneamente sem comprometer sua função primária de proteção ao depositante.
Fontes: Valor Econômico • Bloomberg Línea • Let’s Money Podcast — The Banco Master Case and its Impact on the FGC • Let’s Money