O Inter fez seu primeiro teste emitindo e registrando uma duplicata de forma totalmente eletrônica. A prova de conceito, feita em risco sacado, contou com um cliente do banco e usou a Núclea como registradora, segundo apurou o Valor. O movimento coloca a instituição entre as primeiras a colocar em prática a duplicata escritural, a versão digital do título que o Banco Central regulou e que já roda em produção assistida.
Duplicata escritural: as fases do novo modelo
| Etapa |
O que acontece |
| Produção assistida |
Fase de testes e ajuste de processos, com duração prevista de um ano |
| A partir de julho de 2027 |
Adesão obrigatória começa pelas grandes empresas, pelo calendário atual do Banco Central |
| Fase seguinte |
Adesão gradual dos demais portes, com datas que o regulador ainda pode alterar |
Cronograma informado pelo Inter, com base nas definições do regulador. Fonte: comunicado do Inter
Como funcionou o teste
A operação escolhida para estrear foi de risco sacado, arranjo em que um recebível de venda parcelada serve de lastro para antecipar dinheiro ao fornecedor. Para fechar o piloto, o banco definiu a Núclea como registradora e reuniu times de tecnologia, crédito, operações, experiência do cliente e a frente comercial. A produção assistida, fase em que o teste rodou, é justamente a etapa em que as instituições calibram os processos antes de ampliar o volume, uma espécie de ensaio geral com regras do regulador já valendo.
O que muda para o crédito
A duplicata escritural transforma em registro eletrônico um documento que sempre circulou em papel ou em versões pouco padronizadas. Emitida, escriturada e registrada em meio digital, ela promete mais rastreabilidade e segurança para os recebíveis, o que tende a facilitar seu uso em antecipações e outras linhas de crédito. Pela leitura do banco, a maior visibilidade desses títulos abre espaço para que mais financiadores disputem a mesma carteira. É a mesma aposta que outros grandes players vêm fazendo, como mostrou reportagem sobre os bancos que tratam a duplicata escritural como fonte de receita futura.
O tamanho do mercado ajuda a explicar o interesse. O banco recorre a uma conta que aparece no debate sobre o desenho do novo modelo: o potencial de girar cerca de R$ 10 trilhões por ano em duplicatas no país, cifra que ele trata como referência do setor, e não como medição própria. “Estamos nos antecipando a uma transformação importante do mercado de crédito e, por isso, estruturamos nossa operação para estar entre as primeiras instituições a colocar essa nova infraestrutura em prática”, afirma Alexandre Riccio, CEO do Inter no Brasil.
O cronograma até 2027
O calendário do banco reserva cerca de um ano para essa fase de testes. Depois, pelo desenho que o regulador mantém hoje, a adesão obrigatória começa pelas grandes empresas em julho de 2027 e só então avança, de forma escalonada, para os portes menores. O próprio Inter ressalva que o Banco Central pode rever essas datas. Enquanto a régua não fecha, o assunto se soma ao debate mais amplo sobre o mercado de recebíveis e a pressão da duplicata escritural sobre o modelo atual.
O que observar
Um teste isolado é um primeiro passo, não a operação em escala. Vale acompanhar quantas instituições chegam ao fim da produção assistida com processos prontos e quanto da promessa de mais concorrência entre financiadores de fato se traduz em custo menor para as empresas que antecipam recebíveis. Fica também a pergunta sobre como o Banco Central vai tratar o cronograma de adesão dos portes menores, cuja capacidade de integração costuma ser o gargalo desse tipo de virada de infraestrutura.
Fontes: Valor: Banco Inter conclui seu 1º teste de duplicata escritural • Comunicado do Inter (16/09/2026) • Let’s Money: Bancos apostam na duplicata escritural como fonte de receita futura • Let’s Money: Mercado de recebíveis, duplicata escritural e Pix