Azify: a infratech que une blockchain e BaaS no Brasil
Braço tecnológico do grupo italiano Azimut, empresa opera pagamentos internacionais via stablecoin, Banking as a Service e ativos virtuais a partir de São Paulo
A Azify é o braço de tecnologia financeira criado no Brasil pelo grupo italiano Azimut, uma das maiores gestoras independentes de patrimônio do mundo, listada na bolsa de Milão e presente em 20 países. Em entrevista ao Let’s Money Podcast, Gustavo Siuves, CRO da Azify, detalhou como a empresa nasceu, quais produtos oferece e por que o Brasil foi escolhido como base de operação global da companhia.
Com dois anos de existência e cerca de oito meses de atuação comercial efetiva no mercado, a Azify se posiciona como uma infratech que conecta o sistema financeiro tradicional ao universo dos ativos virtuais. A proposta é oferecer infraestrutura financeira regulada para que empresas lancem seus próprios produtos bancários, de investimento e de pagamento internacional, tudo via APIs modulares e com compliance embarcado.
Como a Azify surgiu dentro do grupo Azimut
A Azimut é uma empresa italiana com 37 anos de história, especializada em gestão de patrimônio e investimentos. O grupo administra mais de 112 bilhões de euros em ativos sob gestão, atende clientes em todos os continentes e emprega uma rede de mais de 2 mil consultores financeiros. Sua estrutura societária é diferenciada: aproximadamente 22% das ações pertencem a gestores, funcionários e consultores ligados ao grupo por um acordo de acionistas, enquanto o restante é free float na bolsa de Milão.
Segundo Siuves, a Azimut identificou a necessidade de modernizar sua oferta de produtos para alcançar públicos mais jovens. A base de clientes do grupo é historicamente concentrada em investidores acima de 60 anos, e o desafio passou a ser atrair a geração dos filhos e netos desses clientes. A resposta veio pelo caminho dos ativos virtuais e da tecnologia blockchain.
A Azify nasceu com essa missão. O grupo Azimut detém 50% da empresa, e os outros 50% estão distribuídos entre os sócios fundadores, dois dos quais participaram da programação do Ethereum, a segunda maior blockchain do mundo. Essa composição combina a solidez regulatória e institucional de uma gestora global com o conhecimento técnico profundo do ecossistema cripto.
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Por que o Brasil como base global
O Brasil foi escolhido como sede da Azify por uma combinação de fatores. Os fundadores são brasileiros e conhecem bem o mercado local, que é considerado um dos mais receptivos do mundo para fintechs e infratechs. A maturidade do ecossistema de pagamentos instantâneos, a cultura de inovação financeira e o ambiente regulatório cada vez mais estruturado tornaram o país um terreno fértil para testar e escalar soluções antes de levá-las ao mercado global.
Siuves destacou que a Azify já nasceu com vocação global. Por operar em blockchain, a plataforma pode ser plugada por clientes de qualquer lugar do mundo, e a infraestrutura regulatória é garantida pela própria Azimut, que detém licenças de DTVM (Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários), Instituição de Pagamento (IP) e agora se prepara para obter a licença de PSAV (Prestadora de Serviços de Ativos Virtuais).
Portfólio de produtos: do pool de liquidez ao BaaS completo
O primeiro produto da Azify foi uma plataforma de liquidez de ativos virtuais voltada para o mercado institucional. A solução permite que empresas comprem grandes volumes de stablecoins, especialmente USDT e USDC, de forma rápida, segura e regulada. Hoje, a empresa transaciona entre 30 e 40 milhões de dólares por dia nessa operação.
A partir da demanda dos clientes, o portfólio evoluiu para incluir Banking as a Service (BaaS), com a possibilidade de qualquer empresa criar seu próprio banco digital utilizando a licença e a infraestrutura da Azimut. Além das contas digitais, a Azify também oferece emissão de cartões físicos e virtuais com licença Mastercard, em modelos pré-pago e pós-pago, incluindo opções de alta renda e cartões metalizados.
Outro produto é o Investment as a Service, que permite a bancos digitais conectarem à plataforma da Azify para ofertar CDBs e outros produtos de investimento a seus clientes sem precisar desenvolver infraestrutura própria. A plataforma também oferece soluções de ativos virtuais integradas, permitindo que um banco digital oferte compra e venda de Bitcoin ou stablecoins dentro da mesma conta.
O diferencial, segundo Siuves, está na conectividade entre todos esses módulos. A Azify consegue construir uma conta digital que opera com saldo em stablecoin e utiliza cartão de crédito ou pré-pago alimentado por stablecoins ao invés de moeda fiduciária, funcionando como uma espécie de conta global descentralizada.
Pagamentos internacionais: de cinco dias para menos de uma hora
Um dos focos principais da entrevista foi o produto de pagamentos internacionais da Azify. Siuves explicou que a dor identificada no mercado era clara: empresas que precisam fazer transferências internacionais ainda dependem de tecnologia bancária com mais de 50 anos, o que resulta em prazos de quatro a seis dias, custos elevados, falta de rastreabilidade e processos manuais que geram erros frequentes.
O caso dos importadores ilustra bem o problema. Um container que chega ao porto numa sexta-feira à noite precisa esperar até que o sistema bancário tradicional processe o pagamento, gerando custos de armazenagem que podem superar em muito o próprio custo da transação financeira. Com a solução da Azify, esse pagamento pode ser feito em menos de uma hora, mesmo durante finais de semana e feriados, operando 24 horas por dia, 7 dias por semana.
O modelo funciona com o que Siuves chamou de “stablecoin sanduíche”: a empresa recebe o recurso em reais (moeda fiduciária), converte em USDC (stablecoin regulada nos Estados Unidos) por meio de uma filial do grupo nos EUA, e então liquida o pagamento no país de destino em moeda local. Atualmente, a solução atende 30 países com liquidação em dólar, euro e iene.
Para o cliente final, especialmente empresas tradicionais que não dominam o universo cripto, a comunicação é simplificada. Siuves explicou que não é possível abordar esses clientes falando de stablecoins e blockchain. A abordagem comercial é direta: pagamento internacional mais rápido, mais barato e com total conformidade regulatória. O motor por trás é transparente para quem usa.
O acesso pode ser feito por portal web, com um processo simples de cadastro, transferência via Pix, upload de documentação comprobatória e disparo do pagamento, ou via API, para empresas que desejam integrar a solução diretamente aos seus ERPs e sistemas internos.
Diferenciais competitivos e compliance como pilar central
No mercado brasileiro de Banking as a Service, a Azify se diferencia por dois aspectos principais, segundo seu CRO. O primeiro é o foco em produtos que geram receita para o cliente desde o primeiro dia. Diferente de soluções de infraestrutura pura, onde o cliente precisa primeiro construir sua base para só depois monetizar, os produtos da Azify como investimentos, ativos virtuais e pagamentos internacionais já produzem resultado financeiro imediato.
O segundo diferencial é a expertise nativa em ativos virtuais. Enquanto a maioria dos provedores de BaaS no Brasil não possui conhecimento aprofundado sobre blockchain, criptoativos e stablecoins, a Azify nasceu dentro desse ecossistema. A empresa considera que a convergência entre infraestrutura financeira tradicional e finanças descentralizadas é inevitável, e já estar preparada para operar nesse cruzamento é uma vantagem competitiva significativa.
O compliance é tratado como motor de toda a operação. A Azify trabalha com monitoramento constante de transações, rastreio de hashes em blockchain, identificação de contrapartes e prevenção à lavagem de dinheiro. Siuves destacou que essa postura é o que atrai grandes players institucionais, que precisam de garantias sólidas de que estão operando dentro da legalidade, especialmente após episódios recentes de hacks e desvios de recursos no mercado cripto global.
Bancos nichados e o futuro do embedded finance
Ao longo da conversa, Siuves trouxe uma visão sobre o futuro dos serviços financeiros que está alinhada com movimentos que o mercado já observa. Ele acredita que a tendência é de cada vez mais empresas oferecerem produtos financeiros personalizados para seus próprios públicos, criando o que chamou de “bancos de tribo”.
Os exemplos citados são concretos. O Contibank é um banco voltado para contadores, que já oferece conta integrada com sistema ERP para empresas que estão sendo abertas por seus clientes. Outro caso é o de uma operadora de saúde que criou seu próprio banco digital para médicos, oferecendo antecipação de recebíveis de consultas com plano de saúde de forma automática, direto no aplicativo.
Na visão de Siuves, cada vez mais empresas com grande base de funcionários ou usuários vão perceber que podem criar um motor de receita financeira. Alguns varejistas, segundo ele, já ganham mais com a operação financeira do que com a própria venda de produtos. A Azify quer ser a infraestrutura que viabiliza essa transformação, oferecendo integração rápida, poucos atritos técnicos e produtos que gerem resultado desde o início.
Crédito e a lógica de cooperação no mercado
Sobre produtos de crédito, a Azify ainda não opera diretamente, mas já desenvolveu um modelo intermediário. Utilizando a plataforma de investimentos, a empresa oferece cartão de crédito pós-pago com colateral atrelado ao investimento do cliente, semelhante ao modelo que a XP utilizou no lançamento de seu cartão. O cliente aplica determinado valor e recebe limite de crédito equivalente, o que reduz o risco da operação e permite que o banco digital comece a entender o perfil de pagamento dos usuários antes de oferecer crédito sem garantia.
Para crédito clean, a Azify trabalha com parceiros especializados. Siuves defendeu uma postura de cooperação no mercado de infraestrutura financeira, argumentando que há espaço para provedores atuarem de forma complementar. Cada empresa tem pontos fortes diferentes, e integrações entre concorrentes podem beneficiar os clientes finais mais do que a competição direta em todas as frentes.
Regulação das PSAVs e impacto no mercado
Siuves dedicou parte da conversa ao novo marco regulatório das Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (PSAVs), que entrou em vigor em fevereiro de 2026 com as Resoluções BCB 519, 520 e 521, publicadas pelo Banco Central em novembro de 2025. Essas regras exigem autorização prévia para operar com ativos virtuais no Brasil, além de requisitos rigorosos de capital, governança, compliance e segurança cibernética.
Para a Azify, esse movimento é positivo. Siuves argumentou que a regulação vai separar os players sérios dos que operavam de maneira irregular, aumentando a confiabilidade do mercado e abrindo espaço para que empresas institucionais passem a adotar ativos virtuais em suas operações com mais conforto. O custo para se adequar às novas exigências é alto, o que deve provocar uma onda de fusões e encerramentos entre empresas menores que operavam apenas na compra e venda de criptoativos por spread.
O CRO da Azify também comentou sobre a evolução do Drex, o projeto de real digital do Banco Central, que segundo ele mudou de direção para funcionar como um arcabouço regulatório que supervisiona as stablecoins brasileiras, ao invés de ser uma moeda digital única. Ele vê com bons olhos essa abordagem e acredita que a tokenização vai se expandir para setores como imobiliário, agronegócio e veículos, com possibilidades como fracionamento de imóveis e fundos tokenizados.
Um caso ilustrativo mencionado foi o fundo de Ferraris colecionáveis lançado pela própria Azimut na Itália, que permitiu a investidores adquirir frações de um portfólio de carros raros. Segundo Siuves, o fundo valorizou cerca de 80 a 90% em pouco tempo e segue com demanda crescente.
Inteligência artificial na operação e no mercado financeiro
A Azify também incorpora inteligência artificial em diversas camadas da operação. A qualificação de leads comerciais, por exemplo, é feita inteiramente por IA, sem equipe de SDRs humanos. O time de marketing utiliza mais de 14 ferramentas baseadas em IA, e o motor tecnológico da plataforma utiliza inteligência artificial para análise de perfil de clientes e otimização de processos internos.
Siuves se declarou entusiasta do uso de IA no mercado financeiro, prevendo avanços em score de crédito, KYC, monitoramento de transações e experiência bancária. Ele mencionou que já utiliza assistentes de IA no dia a dia para interagir com seu próprio banco, dispensando o uso do aplicativo tradicional.
O grupo Azimut, segundo ele, planeja trazer ao Brasil em 2026 um banco digital voltado para o público jovem que já opera em Luxemburgo, cuja experiência é quase inteiramente conduzida por inteligência artificial, com recomendações personalizadas de investimento baseadas no perfil e apetite de risco do usuário.
Apesar do entusiasmo com IA, Siuves ressaltou que o relacionamento humano continuará sendo insubstituível em vendas de alto valor. A tecnologia acelera processos, qualifica leads e gera eficiência, mas para fechar contratos expressivos, o contato presencial e a confiança interpessoal permanecem fundamentais, algo que, segundo ele, funciona assim há mais de dois mil anos.
Próximos passos da Azify no Brasil e no mundo
Para o futuro próximo, a Azify pretende seguir dois caminhos simultâneos. O primeiro é ajudar empresas do mundo financeiro tradicional a migrarem para o universo descentralizado, ofertando ativos virtuais e ganhando eficiência operacional. O segundo é levar digitalização financeira para empresas tradicionais de varejo, agro, transporte e outros setores, permitindo que criem seus próprios bancos digitais e descubram novos motores de receita.
No plano global, a empresa pretende escalar suas soluções para atender não apenas o mercado brasileiro, mas também outras operações do grupo Azimut ao redor do mundo, incluindo uma empresa de ativos virtuais na Itália e projetos em desenvolvimento em diversos continentes.