Em entrevista ao Let’s Money Podcast, Silvio Pegado, diretor-geral para a América Latina da Ripple, descreveu como essa prateleira foi montada e o que ela entrega hoje: quatro módulos que uma instituição financeira contrata juntos ou separados. Ele também apontou o que, na leitura dele, ainda segura o dinheiro grande no Brasil, e o obstáculo que descreve é regulatório antes de ser técnico.
Pegado está há cinco anos na companhia e veio de telecom, com passagens por Google e Twitter. Quando começou a oferecer produto cripto a banco, diz que levava porta na cara. A empresa tem hoje 1.500 funcionários e, segundo ele, a missão escrita na fundação não mudou desde então: “Propósito é sempre mover o dinheiro tão rápido como a internet.”
Uma rede paralela ao trilho bancário
A origem, na descrição dele, resolve um problema de tempo. Os fundadores queriam pagamento internacional na velocidade de um e-mail e descartaram uma rede dependente de mineração, com blocos levando minutos para fechar. Criaram uma blockchain com token pré-minerado, a XRP Ledger, e uma empresa em cima dela para vender produtos a instituições financeiras.
O que veio depois foi trabalho de campo. A companhia montou, mercado a mercado, uma rede de bancos e corretoras dispostos a operar com cripto, e passou a usar o token como ativo de passagem para não precisar deixar dinheiro parado do outro lado do mundo. O argumento de venda, resume Pegado, se apoiava em três atributos: transparência, custo e agilidade.
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A conta que fez a empresa comprar licença por licença
Esse desenho tinha um custo escondido. Cada novo corredor de pagamento exigia negociar com um parceiro local, integrar interfaces de programação e passar por credenciamento, um processo que, segundo ele, levava de quatro a cinco meses. Fechado o corredor da Ásia, era preciso recomeçar do zero para a Europa.
Carteira quente para o giro e guarda fria para o estoque, com a chave sob controle do cliente ou da Ripple
Swap
Mesa própria que troca a tesouraria entre moedas e ativos digitais
Payout
Pagamento na ponta final, onde os grandes bancos globais não aceitam operar
Módulos descritos por Silvio Pegado em entrevista ao Let’s Money Podcast.
A custódia foi a peça que exigiu mais aquisição. A empresa comprou uma casa suíça especializada em guarda de longo prazo para grandes instituições, o equivalente a um cofre, e depois uma segunda, de carteira quente, para o giro diário. Faltava o cliente que não quer segurar a própria chave, e para esse caso a Ripple criou um serviço em que ela mesma a guarda, mais uma camada que orquestra custódias de terceiros na mesma tela.
Em cima dos quatro módulos entrou a corretagem institucional. Em abril de 2025, a Ripple anunciou a compra da prime broker Hidden Road por US$ 1,25 bilhão, uma casa que, pelo comunicado da compradora, liquidava US$ 3 trilhões por ano para mais de 300 clientes institucionais. Duas pessoas desse time trabalham no escritório da Faria Lima, diz Pegado.
Por que o dinheiro institucional brasileiro ainda não entrou
Pegado usa três critérios para dizer se um mercado está pronto: clareza regulatória, entrada dos bancos incumbentes e existência de um ecossistema local de fornecedores. Sobre o primeiro, ele é seco ao descrever o comportamento do banco diante de tecnologia nova: “Só vai entrar naquilo quando tiver uma segurança jurídica”.
O terceiro critério, o ecossistema, ele considera montado. Sobra a régua. As regras do Banco Central para prestadoras de serviços de ativos virtuais valem desde fevereiro de 2026 e abriram um prazo de 270 dias para as empresas em atividade protocolarem o pedido de autorização, que se encerra em 30 de outubro de 2026. É esse relógio que Pegado usa para prever o movimento: quando a exigência de licença estiver valendo para todo mundo, avalia, deve entrar no mercado brasileiro um volume de dinheiro institucional que ele descreve como jamais visto. A afirmação é de expectativa, não de movimento observado.
Ele também não vende pressa. A Ripple, admite, “com certeza ela é mais lenta que muitos players no mercado locais”, ritmo que atribui ao peso da área de compliance e à cultura americana da empresa. A companhia, diz, “não está nesse mercado para ganhar os metros rasos”.
O que observar
O relógio da autorização organiza o próximo ano do setor. Vale acompanhar quantas prestadoras chegam ao fim do processo dentro do prazo e quantas preferem sair, porque a resposta define o tamanho do lado da oferta. Para os bancos, a pergunta é se compram infraestrutura pronta de terceiros ou constroem custódia e mesa por dentro, decisão que tende a repetir o padrão já visto em nuvem e em núcleo bancário. E para os fornecedores globais fica um teste de velocidade: o discurso de maratona é confortável enquanto o mercado espera a régua, e vira cobrança no dia em que ela existir.