A Evertec fez cinco compras no Brasil desde 2023, e a primeira delas já era, ela própria, uma máquina de aquisições. A Sinqia havia comprado 26 empresas de software financeiro antes de ser incorporada pela companhia porto-riquenha, num encadeamento que soma cerca de R$ 4,4 bilhões investidos no país. O que sobrou disso é um portfólio de mais de 200 produtos montado a partir de 31 aquisições.
Em entrevista ao Let’s Money Podcast, Clodoaldo Pontes, vice-presidente de Negócios e Comercial da Evertec Brasil, descreveu a parte do processo que não cabe no anúncio da compra: o período em que dois sistemas que fazem a mesma coisa rodam lado a lado, cada um com o seu time, até a companhia decidir qual dos dois sobrevive. “Ao longo do tempo a gente vai ter que dar manutenção por muitos anos ainda em sistemas que fazem a mesma coisa”, afirmou.
Vinte e seis compras antes de ser comprada
A empresa nasceu como Senior Solutions e passou anos consolidando o mercado brasileiro de software para instituições financeiras, até virar Sinqia. Pontes chegou em 2017, a convite do fundador, com a missão de puxar crescimento orgânico numa casa que crescia comprando. Em 2023 a posição se inverteu. A primeira conversa com a Evertec foi em maio de 2023, segundo o relato dele, e o negócio fechou em outubro. Como a Sinqia tinha capital aberto, o fechamento foi mais complexo. “Mudou o nome, mas o DNA continua”, resumiu.
Há frameworks para isso dentro da companhia, um comercial e um operacional, segundo Pontes. A primeira pergunta é o que exatamente está sendo comprado, e as respostas possíveis são três: o produto, a carteira de clientes ou os dois. No caso da Dimensa, criada em 2021 pela Totvs em sociedade com a B3 e organizada em quatro unidades de negócio (core banking, risco, seguros e fundos), havia sobreposição declarada. Plataforma de fundos existia dos dois lados.
Daí saem dois problemas distintos. O primeiro é decidir como os sistemas duplicados vão coexistir até que um deles vire o produto comercializado para todos. O segundo é o inverso: o produto que existe de um lado e não do outro só chega ao cliente recém-adquirido depois que alguém construir a integração. Segundo Pontes, 45 dias depois de fechado o negócio da Dimensa, o potencial de mercado daquela carteira já estava mapeado e as integrações, priorizadas. A compra também trouxe a unidade de seguros, que a Evertec não tinha.
O que acontece depois que o negócio fecha
Etapa
O que acontece
Sobreposição
Identificar onde os dois lados têm o mesmo produto, como as plataformas de fundos no caso da Dimensa
Mapa da carteira
Levantar o potencial de venda da base comprada; na Dimensa, pronto 45 dias depois do fechamento
Integrações
Conectar ao portfólio existente o que a empresa comprada não tinha, para poder ofertar à base dela
Coexistência
Os sistemas sobrepostos seguem em produção ao mesmo tempo até a convergência
Manutenção dupla
Por muitos anos, times sustentando plataformas que fazem a mesma coisa
Etapas descritas por Clodoaldo Pontes em entrevista ao Let’s Money Podcast.
Cinco versões da mesma obrigação
A conta da duplicidade fica visível num exemplo regulatório. A E-Financeira, obrigação acessória da Receita Federal, é usada por banco, por administradora de consórcio e por entidade de previdência. Dentro da companhia havia cinco soluções para a mesma entrega, uma por unidade de negócio, e cada alteração legal precisava ser aplicada em cinco lugares. As cinco viraram uma só, que agora atravessa as unidades em vez de pertencer a alguma delas. É um movimento que ele diz sustentar há três ou quatro anos e que se repete onde houver sobreposição.
O limite da convergência é a customização. “Os nossos sistemas têm um tronco único, porém todos eles são customizáveis”, disse. O que se unifica é o motor, não a instância que roda em cada cliente. E o relógio encurtou: “Você tinha ciclos tecnológicos de ano. Hoje você tem ciclos tecnológicos de semanas”, afirmou.
O que a base consolidada compra
O argumento comercial do portfólio único é a redução de fornecedores. A companhia acabou de montar um banco que roda 47 soluções dela e nenhum outro fornecedor dentro, disse Pontes, sem nomear a instituição. Fora esse caso, a regra é o mosaico, com sistemas dela convivendo com os de terceiros por decisão do cliente. Os números de participação que ele apresenta, sem citar fonte, dão a dimensão da penetração no Brasil: 95% do mercado de consórcio e 85% da custódia de fundos, já contando a base da Dimensa. O consórcio, cuja carteira cresceu 19,5% em 2025, virou item de exportação, com cinco instituições atendidas na Argentina e uma operação no Peru, puxadas por montadoras que atuam na região. O sistema de crédito multimoeda foi apresentado no Chile e na Colômbia, ainda sem venda.
O que segura a base é o custo de troca. “Então, pra você trocar um sistema hoje, é muito complexo”, disse. Cerca de metade da meta de vendas do ano vem de vendas novas, quase sempre dentro da carteira existente. A operação brasileira tem entre 3 mil e 3,5 mil funcionários, com cerca de 60% em tecnologia, e a companhia fechou 2025 com receita global de US$ 931,8 milhões, alta de 10,2%. Uma implantação de mais de 30 sistemas num cliente grande está em curso com prazo de três meses, segundo ele, com a base histórica ficando para depois.
O que observar
Em consolidação de fornecedor de software financeiro, o número que importa não aparece no anúncio da compra. Ele está no intervalo entre o fechamento e o desligamento do sistema redundante, e vale acompanhar quanto tempo as plataformas sobrepostas seguem em produção e quem paga a manutenção dupla nesse período. Para as instituições que contratam, a pergunta é o que acontece com o roteiro de evolução do produto que perde a disputa interna e com quem assinou contrato nele. Para reguladores e registradoras, a concentração de camadas críticas em menos fornecedores desloca a conversa para risco operacional e dependência de terceiros, tema que já entra nas exigências de gestão de fornecedores.