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Trégua no Irã derruba petróleo e muda o jogo para juros e bolsa

A desvalorização do barril somada aos rendimentos reais atrativos reforça a oportunidade em dólar e NTN-B.

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· 7 min

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CENÁRIO ATUAL

O acontecimento mais relevante do mês foi a trégua e o potencial acordo entre Estados Unidos e Irã, na semana de 15/06. O movimento de reconciliação entre os dois países vem permitindo que os preços do petróleo se acomodem: desde o pico em 29/04, quando atingiu US$ 118, a commodity já acumula queda de 38%, retornando à faixa dos US$ 70 — patamar próximo ao observado antes do conflito.

O movimento é positivo para ativos de risco: com o recuo dos custos atrelados ao petróleo, a inflação tende a se estabilizar, aliviando a pressão sobre as margens corporativas e, consequentemente, favorecendo os lucros das empresas e o desempenho de suas ações.

Outro acontecimento importante foi a primeira reunião do banco central americano (FED) sob a liderança de seu novo presidente, Kevin Warsh. Em seu discurso, ele reforçou que a estabilidade de preços é sua principal prioridade, e sua reputação historicamente mais hawkish (postura mais agressiva no combate à inflação) trouxe incertezas de curto prazo ao mercado. O ouro e o Bitcoin (ativos tipicamente associados a um trade contra o dólar) já vinham recuando desde a escolha de Warsh por Trump, e aprofundaram as quedas após a reunião, com o ouro perdendo o patamar de US$ 4.000 e o Bitcoin o de US$ 60.000.

Observa-se abaixo o comportamento de alguns ativos após a nomeação de Warsh para liderar o FED: enfraquecimento do ouro e do Bitcoin, fortalecimento do dólar e elevação dos juros de médio prazo (com a consequente queda nos preços dos títulos).

Com isso, os investidores passaram a precificar dois aumentos de juros no primeiro trimestre de 2027, ante apenas um antes da reunião.

No mês, refletindo o ambiente de maior cautela monetária, o índice S&P 500 recua cerca de 3%. 

Vale notar que a cautela do FED tem respaldo nos dados: o núcleo do PCE (indicador de inflação preferido pela autoridade monetária) acelerou para 3,4% na comparação anual, ainda distante da meta de 2%, em parte pelo peso dos preços de energia durante o choque do petróleo. Com a recente normalização do barril, esperamos que essa pressão se dissipe nos próximos meses, o que reforça nossa leitura de que o ciclo restritivo americano tende a ser mais curto do que o mercado precifica hoje.

No cenário brasileiro, ao contrário do movimento de queda do dólar dos últimos meses descrito na carta de maio, neste mês a moeda americana subiu cerca de 3%, cotada agora a R$ 5,19, impulsionada principalmente pelo fortalecimento global do dólar mencionado anteriormente.

O fluxo estrangeiro segue saindo da bolsa, com o Ibovespa cotado em torno de 173 mil pontos. O retorno do apetite por ativos americanos e a fila de novos IPOs nos Estados Unidos, como o da SpaceX, vêm drenando o fluxo que antes se direcionava a mercados emergentes.

O IPCA de maio de 2026 registrou alta de 0,58% e acumula 4,72% em 12 meses. Para 2026, o boletim Focus projeta o IPCA em 5,33%, recuando para 4,15% em 2027. Uma perspectiva inflacionária mais benigna à frente pode abrir espaço para cortes de juros mais profundos e, consequentemente, maior potencial de ganho nos ativos de risco.

No campo monetário, o Copom reduziu a Selic para 14,25% em 17/06, mantendo um tom cauteloso diante da inflação ainda acima da meta. O boletim Focus de 19/06 projetava a taxa encerrando 2026 em 14%, ou seja, apenas mais um corte de 0,25 ponto até o fim do ano, patamar que segue fortemente restritivo para a economia. Vale notar, contudo, que essa projeção é anterior ao anúncio do acordo entre Estados Unidos e Irã. À medida que o petróleo mais baixo for aliviando a pressão sobre os preços dos insumos, acreditamos que uma trajetória mais favorável para a Selic possa se concretizar, abrindo espaço para cortes adicionais.

No cenário político, não houve grande movimentação no mês, à exceção de alguns atritos entre Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro, que poderiam enfraquecer a direita nas eleições. Como destacado anteriormente, um cenário fiscal mais benéfico levaria ao fechamento dos juros reais (hoje fortemente pressionados pela preocupação com a trajetória fiscal do país), e esse fechamento seria, em nossa visão, o principal vetor para destravar a performance dos ativos brasileiros. Cabe ressaltar, contudo, que não é esse o cenário que se desenha no momento: a trajetória fiscal corrente segue sendo de deterioração.

OLHANDO À FRENTE

Com a queda do dólar nos últimos meses, entendemos ser um momento adequado para alocações em ativos dolarizados, como as Treasuries — tese que viemos reforçando nas últimas cartas — dado o nível atrativo dos yields desses títulos. Consideramos importante manter parte do patrimônio em dólar e, neste momento em particular, a exposição nos parece interessante:  o dólar atingiu patamares mais baixos e um eventual agravamento do quadro fiscal brasileiro pode levar a uma desancoragem do câmbio. Manter alocação em moeda forte, de economias mais resilientes do que a brasileira, oferece, além de rendimento (ainda que inferior ao da renda fixa local), uma camada relevante de proteção cambial.

Além disso, com o acordo, ou ao menos a estabilização do conflito entre Estados Unidos e Irã, as perspectivas inflacionárias tendem a arrefecer, de modo que o yield travado nesses títulos deve proporcionar boa rentabilidade real ajustada ao risco. E, caso se concretize um cenário de juros mais baixos nos Estados Unidos, há ainda o potencial de ganho via marcação a mercado.

No Brasil, mantemos forte convicção nos títulos atrelados à inflação. As NTN-Bs longas seguem oferecendo prêmios reais que historicamente só foram observados em momentos de estresse profundo. Entendemos, contudo, que esses patamares refletem muito mais uma combinação do cenário internacional de juros elevados (presente na maioria das economias) com o ruído fiscal e político doméstico de curto prazo, do que uma fragilidade estrutural da economia brasileira. Para investidores com horizonte adequado, esses títulos garantem ganho real expressivo e oferecem assimetria relevante.

Na renda variável americana, apesar da crescente preocupação com o volume de investimentos em inteligência artificial, seguimos enxergando o setor de tecnologia como um catalisador estrutural de longo prazo para o crescimento dos lucros das maiores empresas do mundo e, por consequência, para a valorização do S&P 500. Vale ressaltar, no entanto, que o crescimento de lucros não se restringe às empresas de tecnologia. Como se observa no gráfico abaixo, as demais companhias do S&P 500 — excluindo as chamadas Mag 7 — vêm ampliando seus lucros ano a ano, e a expectativa, segundo o Morgan Stanley, é de que o ritmo de crescimento dos dois grupos convirja para cerca de 15%. Essa maior disseminação dos lucros, menos concentrada em um único setor, é um sinal saudável para a sustentação do índice.

De forma mais ampla, reforçamos a importância de manter ativos reais na carteira — com destaque para as ações, tanto americanas quanto brasileiras. Diante de uma trajetória fiscal que segue se deteriorando, e não melhorando, esses ativos oferecem uma proteção que a renda fixa nominal não proporciona: enquanto um título nominal tem seu valor real corroído por uma eventual desancoragem inflacionária e cambial decorrente do quadro fiscal, empresas com capacidade de repasse de preços — e, no caso brasileiro, sobretudo exportadoras e companhias com receitas dolarizadas — tendem a preservar valor ao longo do tempo. Cabe a ressalva de que, no Brasil, a piora fiscal também pressiona a bolsa pela via da abertura dos juros longos; por isso, enxergamos essa alocação não como um posicionamento de curto prazo, e sim como um componente estrutural de proteção patrimonial frente ao risco fiscal.

Em commodities, o cobre permanece como uma das teses que mais nos atraem, sustentada por drivers estruturais como a transição da matriz energética, a eletrificação do transporte e, principalmente, a expansão global de data centers. Como se observa no gráfico abaixo, projeta-se que a demanda por cobre supere a oferta já a partir de 2027, com o descompasso se ampliando nos anos seguintes — dinâmica que deve impulsionar os preços do metal no médio e longo prazo.

O ouro, como mencionado, vem tendo desempenho fraco desde janeiro, recuando da máxima histórica de US$ 5.600 para cerca de US$ 4.000 — uma queda de aproximadamente 28% em relação ao topo. Apesar dessa performance, seguimos atribuindo extrema importância ao metal nos portfólios, por ser uma fonte de diversificação e uma alternativa à fragilidade das moedas fiduciárias.

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