CENÁRIO ATUAL
O acontecimento mais relevante do mês foi a trégua e o potencial acordo entre Estados Unidos e Irã, na semana de 15/06. O movimento de reconciliação entre os dois países vem permitindo que os preços do petróleo se acomodem: desde o pico em 29/04, quando atingiu US$ 118, a commodity já acumula queda de 38%, retornando à faixa dos US$ 70 — patamar próximo ao observado antes do conflito.
O movimento é positivo para ativos de risco: com o recuo dos custos atrelados ao petróleo, a inflação tende a se estabilizar, aliviando a pressão sobre as margens corporativas e, consequentemente, favorecendo os lucros das empresas e o desempenho de suas ações.

Outro acontecimento importante foi a primeira reunião do banco central americano (FED) sob a liderança de seu novo presidente, Kevin Warsh. Em seu discurso, ele reforçou que a estabilidade de preços é sua principal prioridade, e sua reputação historicamente mais hawkish (postura mais agressiva no combate à inflação) trouxe incertezas de curto prazo ao mercado. O ouro e o Bitcoin (ativos tipicamente associados a um trade contra o dólar) já vinham recuando desde a escolha de Warsh por Trump, e aprofundaram as quedas após a reunião, com o ouro perdendo o patamar de US$ 4.000 e o Bitcoin o de US$ 60.000.
Observa-se abaixo o comportamento de alguns ativos após a nomeação de Warsh para liderar o FED: enfraquecimento do ouro e do Bitcoin, fortalecimento do dólar e elevação dos juros de médio prazo (com a consequente queda nos preços dos títulos).

Com isso, os investidores passaram a precificar dois aumentos de juros no primeiro trimestre de 2027, ante apenas um antes da reunião.
No mês, refletindo o ambiente de maior cautela monetária, o índice S&P 500 recua cerca de 3%.
Vale notar que a cautela do FED tem respaldo nos dados: o núcleo do PCE (indicador de inflação preferido pela autoridade monetária) acelerou para 3,4% na comparação anual, ainda distante da meta de 2%, em parte pelo peso dos preços de energia durante o choque do petróleo. Com a recente normalização do barril, esperamos que essa pressão se dissipe nos próximos meses, o que reforça nossa leitura de que o ciclo restritivo americano tende a ser mais curto do que o mercado precifica hoje.
No cenário brasileiro, ao contrário do movimento de queda do dólar dos últimos meses descrito na carta de maio, neste mês a moeda americana subiu cerca de 3%, cotada agora a R$ 5,19, impulsionada principalmente pelo fortalecimento global do dólar mencionado anteriormente.
O fluxo estrangeiro segue saindo da bolsa, com o Ibovespa cotado em torno de 173 mil pontos. O retorno do apetite por ativos americanos e a fila de novos IPOs nos Estados Unidos, como o da SpaceX, vêm drenando o fluxo que antes se direcionava a mercados emergentes.
O IPCA de maio de 2026 registrou alta de 0,58% e acumula 4,72% em 12 meses. Para 2026, o boletim Focus projeta o IPCA em 5,33%, recuando para 4,15% em 2027. Uma perspectiva inflacionária mais benigna à frente pode abrir espaço para cortes de juros mais profundos e, consequentemente, maior potencial de ganho nos ativos de risco.
No campo monetário, o Copom reduziu a Selic para 14,25% em 17/06, mantendo um tom cauteloso diante da inflação ainda acima da meta. O boletim Focus de 19/06 projetava a taxa encerrando 2026 em 14%, ou seja, apenas mais um corte de 0,25 ponto até o fim do ano, patamar que segue fortemente restritivo para a economia. Vale notar, contudo, que essa projeção é anterior ao anúncio do acordo entre Estados Unidos e Irã. À medida que o petróleo mais baixo for aliviando a pressão sobre os preços dos insumos, acreditamos que uma trajetória mais favorável para a Selic possa se concretizar, abrindo espaço para cortes adicionais.
No cenário político, não houve grande movimentação no mês, à exceção de alguns atritos entre Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro, que poderiam enfraquecer a direita nas eleições. Como destacado anteriormente, um cenário fiscal mais benéfico levaria ao fechamento dos juros reais (hoje fortemente pressionados pela preocupação com a trajetória fiscal do país), e esse fechamento seria, em nossa visão, o principal vetor para destravar a performance dos ativos brasileiros. Cabe ressaltar, contudo, que não é esse o cenário que se desenha no momento: a trajetória fiscal corrente segue sendo de deterioração.









