Em 2025, nossas teses — ainda que em estágio inicial — estiveram concentradas na queda dos juros nos Estados Unidos e na expectativa de enfraquecimento do dólar. Em determinados momentos, o mercado americano apresentou comportamento atípico, mais semelhante ao de mercados emergentes, com quedas simultâneas em câmbio, bolsa e renda fixa. Esse movimento refletiu um ambiente político mais incerto, marcado por questionamentos quanto à autonomia de instituições públicas.
No início de 2026, de forma estrutural, mantemos nossa convicção na apreciação de moedas emergentes, especialmente em países onde os juros reais permanecem elevados, como o Brasil. No entanto, os recentes eventos no Irã demandam uma postura mais cautelosa na alocação global.
A guerra no Irã introduziu novos elementos ao mercado, com impactos imediatos na precificação dos ativos. Em um primeiro momento, o aumento da volatilidade leva alocadores globais a reduzirem exposição para adequação às suas políticas de risco. Esse movimento técnico pressiona ativos que, em um cenário de conflito prolongado, tenderiam a se beneficiar.
É o caso do ouro — tradicional ativo de proteção — que chegou a recuar 17% desde o início do conflito, e do Real brasileiro, moeda de um país exportador de commodities. Esses mercados são diretamente impactados por eventuais disrupções no Estreito de Hormuz, por onde transitam cerca de 20% da produção global de petróleo e 30% da produção de fertilizantes.
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O gráfico abaixo ilustra essa dinâmica: em momentos iniciais de alta incerteza — como no início da guerra da Ucrânia (2022, em preto) e do conflito no Irã (2026, em azul) — ativos como o Real tendem a sofrer por fatores técnicos, mas demonstram maior resiliência ao longo do tempo.
Fonte: Robin Brooks – @robin_j_brooks
Por outro lado, o início do conflito elevou preocupações quanto à trajetória de queda dos juros americanos, diante do risco de uma inflação mais persistente. As taxas de juros de longo prazo (10 anos) subiram de 3,94% para 4,44% em apenas quatro semanas.
Adicionalmente, a redução de risco nas carteiras globais reforçou a demanda por dólar como ativo de segurança. A combinação de juros longos mais elevados e maior incerteza cria um ambiente favorável ao fortalecimento da moeda americana. Nesse contexto, o DXY (índice do dólar contra moedas de países desenvolvidos) avançou 2,39% no mês.
Olhando à frente
Enquanto o ambiente de incerteza persistir, é provável que os juros longos americanos permaneçam elevados e que o dólar continue forte frente às principais moedas globais.
Ainda assim, o presidente americano Donald Trump enfrenta um desafio relevante com a proximidade das eleições de midterm. Um eventual enfraquecimento político aumenta o incentivo para buscar soluções que evitem uma alta significativa no preço do petróleo, especialmente caso o barril continue próximo de US$ 100 no segundo semestre.
Mesmo sem um desfecho claro para o conflito nos próximos meses, esperamos uma redução gradual do nível de incerteza — movimento semelhante ao observado no segundo semestre de 2022. Em um cenário mais estável, o real brasileiro tende a retomar a trajetória de apreciação observada em 2025.
Investidores globais com foco em mercados emergentes, que permaneceram subalocados em países como Argentina e China nos últimos anos, enfrentam pressão crescente para capturar um eventual rally no Brasil. Embora juros mais altos nos Estados Unidos possam limitar a queda das taxas longas brasileiras, entendemos que o Banco Central brasileiro ainda dispõe de espaço para flexibilização monetária, e que os prêmios embutidos nas curvas locais seguem elevados.
No Brasil, seguimos confiantes na alocação em ativos reais, como renda variável — com preferência por empresas de maior porte — e instrumentos atrelados à inflação. No campo político, a formalização das candidaturas para as eleições de 2026 parece mais precificada do que no final de 2025. Ainda assim, a definição do vice presidente na chapa do PT pode gerar surpresas, tanto positivas quanto negativas.
No cenário internacional, as treasuries longas voltam a apresentar assimetria atrativa, abrindo espaço para alocação, especialmente para investidores que ainda não possuem essa exposição. O ouro, apesar da recente queda — que interpretamos como técnica e não baseada em fundamentos — permanece como importante instrumento de proteção. Para carteiras internacionais com maior exposição à renda variável, seguimos utilizando estratégias com opções como forma de controle de risco, preservando a capacidade de capturar oportunidades em eventuais movimentos de correção.
*Esta carta foi elaborada por Gabriel Timm em 27/03/2026 e tem caráter exclusivamente informativo e educacional. As visões e análises aqui expostas refletem a opinião pessoal do autor com base no cenário econômico observado até a data de publicação.
Este conteúdo não deve ser interpretado como uma oferta de venda, solicitação de compra ou recomendação direta de investimento em ativos específicos.