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SegurançaIA · cibersegurança

IA remove freio moral ao crime e multiplica fraudadores

A IA remove barreiras morais ao crime financeiro, criando uma nova classe de fraudadores que ‘apenas escrevem comandos’ e não se sentem culpados.

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· 3 min

Atualizado em

Shutterstock

A inteligência artificial está criando uma nova classe de fraudadores: pessoas que jamais tentariam um crime convencional, mas estão dispostas a escrever um comando e esperar o resultado. Especialistas em segurança financeira alertam que esse distanciamento psicológico habilitado pela IA transforma o perfil de ameaças para bancos e sistemas de pagamento.

Fraude financeira: antes e depois da IA

Característica Modelo tradicional Com IA
Volume por plataforma Alto (credential stuffing) Baixo, abaixo do limiar de alerta
Alvo Uma plataforma Múltiplas plataformas
Detectabilidade Picos identificáveis Padrão distribuído oculto
Barreira moral Presente Reduzida: distância psicológica
Perfil do atacante Criminosos experientes Iniciantes habilitados pela IA

Padrões descritos no Nacha Smarter Faster Payments. Fonte: Finextra

O fraudador que não se sente criminoso

Matt Vega, chefe de gabinete da Sardine, relatou que, em conversas com fraudadores, eles descreveram um novo autoconceito: “Eu não fiz isso. Eu não roubei dessa pessoa. Eu apenas escrevi um comando e esperei para ver o que acontecia”, disse Vega. Segundo ele, essa dissociação entre ação e responsabilidade está ampliando o número de pessoas dispostas a cometer fraudes. O comportamento fraudulento também está se intensificando: abuso de plataformas, estornos e fraude de primeira parte continuam, mas agora esses atores estão assumindo riscos maiores porque a IA aumenta a confiança deles.

Categorias antes separadas, como fraude, cibersegurança e proteção de contas, estão se fundindo numa ameaça unificada chamada “ciberfraude”, com ataques mais sofisticados integrados em múltiplos sistemas. O modelo antigo de “credential stuffing” com alto volume em uma única plataforma está dando lugar a ataques de varredura de baixo volume distribuídos por diversas plataformas, abaixo dos limiares que disparam alertas nos sistemas atuais.

Respostas em tempo real e o dilema da fricção

Elizabeth Bourgoin, chefe da área bancária do Google, ressaltou que a IA acelera tanto a inovação quanto a gestão de risco, mas que bancos não podem ficar parados dentro de estruturas regulatórias. “Como faço isso em um ambiente regulamentado? Como faço para que passe pelo crivo dos meus controles internos?”, questionou Bourgoin. Joe Fuqua, diretor de tecnologia da Neurothink, acrescentou que novos modelos de defesa precisarão ser dinâmicos e adaptáveis.

“Ser capaz de analisar múltiplos sistemas e processos de forma consistente e coerente é exatamente o que a IA faz de melhor”, disse Fuqua. No Brasil, onde golpes digitais já desviaram R$ 710 milhões via Pix e onde a engenharia social segue crescendo como vetor de fraude, o desafio ganhou peso adicional. Steven Bernstein, chefe de desenvolvimento estratégico do JP Morgan na América do Norte, citou um pagamento de US$ 2,3 milhões bloqueado por verificação de sanções para ilustrar o dilema: “Você não quer pensar no pagamento. Ele acontece em segundo plano. Como equilibrar a fricção e a velocidade?”, questionou Bernstein.

O que observar

O distanciamento moral habilitado pela IA representa um desafio específico para modelos de detecção baseados em comportamento: esses sistemas são calibrados para identificar padrões de atores com histórico criminoso consolidado, não para iniciantes sem inibição que experimentam a fraude como se fosse um teste de automação.

A ampliação do pool de atacantes sem aumento proporcional na assinatura comportamental tende a elevar os falsos negativos dos sistemas atuais. Em infraestruturas de alto volume como o Pix, onde a janela de detecção é de milissegundos e ataques de baixo volume distribuídos por múltiplas contas não geram picos, a pressão sobre os modelos de risco é direta.

Fontes: Finextra

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