A Suprema Corte das Bahamas aceitou o processo de liquidação do Banco Master, decisão que facilita ao liquidante nomeado pelo Banco Central buscar ativos do grupo de Daniel Vorcaro no paraíso fiscal. O passo pode esclarecer relatos, ainda não confirmados, de que o banco teria mais de R$ 1 bilhão em títulos do Tesouro dos Estados Unidos.
Os números no centro do mistério dos Treasuries
| Referência |
Valor |
| Liquidity Strategies Fund (Bahamas) |
US$ 205,5 mi (avaliação BRB) |
| Global Navigator Fund (Jersey) |
US$ 114,2 mi (avaliação BRB) |
| Saldo contabilizado (ofício do BC, junho) |
R$ 1,924 bi |
| Estimativa preliminar do total |
cerca de US$ 600 mi |
Valores citados no processo, segundo documentos a que o Valor teve acesso. Fonte: Valor Econômico
O que a Justiça das Bahamas decidiu
Em decisão de 26 de maio de 2026, o juiz Raynard Rigby, da Suprema Corte das Bahamas, reconheceu a liquidação conduzida no Brasil. No texto, ele aponta que o Banco Central age como um juiz de falências para os bancos e que o liquidante, a EFB Regimes Especiais de Empresas, funciona como agente do regulador. “Estou convencido de que a EFB cumpre os requisitos previstos na Lei”, afirmou Rigby, ao equiparar os poderes do liquidante brasileiro aos de um liquidante local. Na prática, a decisão abre espaço para a busca por ativos do grupo no exterior, linha que já corre também nos Estados Unidos.
O mistério dos Treasuries
Desde o ano passado, quando o Master negociava uma fusão com o BRB, circulam rumores de que o banco teria mais de R$ 1 bilhão em Treasuries. Segundo documentos a que o Valor teve acesso, os títulos estariam em dois fundos: o Liquidity Strategies Fund, sediado nas Bahamas e avaliado pelo BRB em US$ 205,5 milhões, e o Global Navigator Fund, sediado em Jersey e avaliado em US$ 114,2 milhões. Um advogado contratado pelo BRB viajou às ilhas e confirmou a existência dos fundos, mas não os detalhes, já que o Master nunca chegou a transferir formalmente as cotas, faltando uma assinatura quando o banco foi liquidado, em novembro de 2025.
O Banco Central, por sua vez, alegava que os títulos não haviam sido comprovados. “Esses títulos no exterior, de R$ 1,8 bilhão, são um bom exemplo do que você pode fazer uma provisão, porque na hora que o BRB foi procurar fazer a diligência se existiam ou não esses títulos, ele não conseguiu”, disse Ailton de Aquino Santos, diretor de fiscalização do BC, em depoimento à Polícia Federal em dezembro de 2025. A PwC, contratada para a auditoria do balanço, também afirmou não ter recebido o detalhamento completo das carteiras. Para um advogado a par do caso, não há contradição necessária entre as versões: “É quase uma discussão teológica. Uma coisa é dizer que não existe, outra coisa é dizer que não consegue comprovar que existe.” O caso se soma ao rombo de R$ 50 bilhões atribuído ao Master e à teia de cobranças contra Vorcaro, como a ação da Tether por R$ 1,5 bilhão.
O que observar
Com a chancela da corte estrangeira, o liquidante ganha acesso formal aos cotistas dos fundos, e é aí que o impasse deve se resolver. Dois pontos seguem em aberto: o valor real dos ativos, que estimativas preliminares colocam em cerca de US$ 600 milhões, bem abaixo do contabilizado, e a titularidade dos recursos, ou seja, se pertenciam ao banco ou se transitaram por uma cadeia de empresas de fachada. A pergunta que organiza o caso é a diferença entre um ativo que não existe e um ativo que não se consegue comprovar, distinção que muda o tamanho da perda a ser rateada.
Para credores de instituições em liquidação, a lição é operacional: recuperação de ativos em paraísos fiscais depende de reconhecimento judicial cruzado, acesso a gestores e cadeia documental, um processo lento e caro. Vale acompanhar se o arcabouço de cooperação entre o regulador brasileiro e cortes estrangeiras encurta o prazo entre a quebra e a devolução de recursos, e quanto da diferença entre o valor declarado e o valor encontrado acaba virando provisão.
Fontes: Valor Econômico • O Tempo • Let’s Money • Let’s Money