O Banco do Brasil formaliza nesta segunda-feira (13) um empréstimo de R$ 2,57 bilhões ao governo de São Paulo para bancar a contrapartida estadual do túnel Santos-Guarujá, segundo nota do Ministério da Fazenda. A operação, estruturada pelo BB e garantida pela União, será assinada em cerimônia com o vice-presidente Geraldo Alckmin, o ministro Dario Durigan, a presidente do banco, Tarciana Medeiros, e o secretário de Fazenda paulista, Samuel Kinoshita.
A estrutura financeira do túnel Santos-Guarujá
| Componente |
Valor |
| Investimento total estimado |
R$ 6,8 bi |
| Aporte público total |
R$ 5,1 bi |
| Aporte privado |
R$ 1,7 bi |
| Empréstimo BB à contrapartida de SP |
R$ 2,57 bi |
| Concessão (anos) |
30 |
Estrutura anunciada no leilão de setembro de 2025. Fonte: Secom/gov.br.
A conta da PPP do túnel Santos-Guarujá
O projeto é classificado pelo governo federal como a maior obra do Novo PAC e foi estruturado como parceria público-privada. O investimento total estimado é de R$ 6,8 bilhões, com R$ 5,1 bilhões aportados pelo setor público, divididos igualmente entre União e Estado de São Paulo em torno de R$ 2,55 bilhões cada, e R$ 1,7 bilhão pela iniciativa privada. O contrato foi a leilão em 5 de setembro de 2025 na B3, e a portuguesa Mota-Engil Latam Portugal venceu o certame com desconto de 0,5% sobre a contraprestação pública máxima anual de R$ 438,3 milhões. A concessão é de 30 anos.
“A operação, no valor de R$ 2,57 bilhões, foi estruturada pelo BB e conta com garantia da União, reforçando a cooperação entre o Governo Federal, o Governo do Estado de São Paulo e o Banco do Brasil, no contexto de um dos mais relevantes projetos de infraestrutura do país”, diz a nota do Ministério da Fazenda divulgada no domingo (12).
Disputa de paternidade e cerimônia conjunta
A formalização acontece duas semanas depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter criticado publicamente o governador Tarcísio de Freitas por não reconhecer o financiamento federal da obra, segundo o Valor. A cerimônia de assinatura recoloca os dois lados na mesma foto. O projeto havia sido lançado em fevereiro de 2025 em evento com a presença dos dois, e só voltou ao centro do debate quando a discussão sobre a autoria política da obra ganhou espaço. A estrutura financeira, porém, mantém o desenho bipartite: a União entra com sua parcela do aporte e garante o empréstimo do BB, e o Estado fica com a outra metade, agora alavancada pela operação de crédito.
O BB como estruturador
Para o Banco do Brasil, a operação chega em um momento em que a instituição se reposiciona dentro do mercado. Em março, a presidente Tarciana Medeiros promoveu uma reorganização de diretorias e trocou 12 executivos, em movimento voltado a acelerar a execução de crédito e priorizar operações de maior porte. O empréstimo ao governo paulista com garantia soberana entra nessa lógica: é uma linha de grande volume, com risco mitigado pela União e alta visibilidade institucional. Para o Estado, o empréstimo converte a contrapartida em um fluxo programado, sem exigir reprogramação imediata do orçamento.
A combinação de operação grande, garantida pela União, em obra federal-estadual é também uma vitrine para o BB ocupar um papel que costuma pertencer ao BNDES em grandes projetos de infraestrutura. O movimento acontece em paralelo a outras frentes da instituição, como a criação de um selo para elevar a qualidade do crédito garantido pelo FGO e o esforço de destravar carteira consignada e MPE em condições mais competitivas.
O que observar
Vale acompanhar se a operação serve de gabarito para outras contrapartidas estaduais em obras do Novo PAC. A arquitetura de “empréstimo do BB + garantia da União” transfere risco de execução orçamentária do Estado para uma linha de crédito programada, sem consumir imediatamente espaço fiscal federal. Se o modelo se consolidar, bancos públicos e fundos de infraestrutura tendem a recalibrar apetite e preço em disputas por mandatos semelhantes, em especial onde o desenvolvimento bancário tradicional ocupava o papel de financiador principal de projetos federais-estaduais.
Do lado do crédito, a pergunta estrutural é quanto desse tipo de operação entra nos próximos balanços do BB e com que margem. Linhas com garantia soberana têm spread menor, mas também menor alocação de capital regulatório. Em um ano em que o banco tem trabalhado para mostrar disciplina na concessão e já fez renegociação agressiva em carteiras estressadas, operações soberanas funcionam como colchão de volume com risco baixo, o contraponto natural às carteiras mais voláteis.
Fontes: Valor Econômico • Secom/gov.br • Agência Brasil • Let’s Money