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BC: teto de juros pode afastar bancos do consignado

Fernando Rocha, do BC, diz que o teto de 1,99% pode tornar o consignado privado menos atraente para bancos; inadimplência atinge recorde de 8,6%.

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Atualizado em

Diego Grandi / Shutterstock.com

O Banco Central colocou em dúvida o apetite dos bancos pelo consignado privado. Nesta quinta-feira (30), o chefe de estatísticas da autoridade monetária, Fernando Rocha, afirmou que o teto de 1,99% ao mês nas operações com garantia do FGTS pode esfriar o interesse das instituições financeiras pela modalidade.

O alerta veio junto com um dado incômodo: a inadimplência do produto atingiu o maior nível já registrado. O recado do técnico ajuda a explicar por que as concessões pararam de crescer depois de um ano de expansão acelerada.

O recado do BC sobre o teto de juros do consignado privado

Rocha foi direto ao ponto econômico durante a apresentação das estatísticas de crédito do primeiro semestre. “A gente tem uma regulamentação de um teto de taxa de juros que pode, eventualmente, tornar a modalidade menos atraente do ponto de vista das instituições financeiras”, disse.

O técnico fez questão de não julgar o mérito da regra. “Nós não estamos entrando no mérito se os juros são altos ou baixos, se o teto é justificável ou não […]. Numa análise econômica padrão, de comparar preço com quantidade, se há uma limitação de preço, vai ter impacto na quantidade”, afirmou.

FGTS como garantia puxa na direção oposta

Se o teto pressiona a oferta, a possibilidade de usar o FGTS como garantia empurra para o outro lado. As regras definidas em junho pelo Comitê Gestor deixam o trabalhador comprometer até 35% das verbas rescisórias, a multa integral do FGTS (100%) e um décimo (10%) do saldo no fundo.

Na leitura de Rocha, essa trava de garantia tende a melhorar as condições e reduzir o risco. A funcionalidade, segundo ele, “pode aumentar o nível de garantias percebidas para a operação, e pode, portanto, diminuir a taxa de juros dessa modalidade”. O programa Crédito do Trabalhador, na avaliação do técnico, tem “méritos inegáveis”.

Consignado privado em junho de 2026
Indicador Junho Variação
Saldo R$ 113,3 bi +3,8% no mês
Concessões R$ 7,68 bi -1% no mês
Taxa média 54% ao ano -2,3 p.p. em 12m
Inadimplência 8,6% recorde da série

Estatísticas monetárias e de crédito do 1º semestre de 2026. Fonte: Valor Econômico

Inadimplência recorde e concessões estáveis

O quadro estatístico dá contexto à cautela dos bancos. O calote no consignado privado chegou a 8,6% em junho, avanço de 0,7 p.p. na comparação mensal e o pior resultado desde o início da série, em março de 2011. “Ao longo de 2026, o crescimento da taxa de inadimplência do crédito ao trabalhador tem sido grande, significativo, na comparação com as demais modalidades”, declarou Rocha.

As concessões cederam 1% no mês, a R$ 7,68 bilhões, e se acomodaram abaixo dos R$ 8 bilhões mensais. O estoque, porém, segue firme: o saldo cresceu 3,8% na passagem de maio para junho, a R$ 113,3 bilhões, e acumula alta de 143,1% em um ano, depois de superar a marca de R$ 100 bilhões. A taxa média ficou em 54% ao ano.

O que observar

A tensão é clássica: um teto de preço tende a reduzir a quantidade ofertada, sobretudo entre instituições com custo de captação mais alto e menor apetite a risco. Vale acompanhar se o reforço de garantias compensa esse desestímulo e mantém bancos grandes, fintechs de crédito e correspondentes na disputa, ou se a modalidade se concentra nos players mais eficientes. A inadimplência em nível recorde é o outro ponto a monitorar: se seguir subindo, pode acelerar a seletividade na concessão, independentemente do teto.

Fontes: Valor EconômicoTeto de 1,99% no consignadoFGTS como garantia do Crédito do Trabalhador

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