O BTG Pactual fechou o segundo trimestre de 2026 com lucro e receita recordes, mas o dado que dominou a leitura do mercado foi outro: o peso cada vez maior do crédito no resultado. O lucro ajustado somou R$ 5,142 bilhões, avanço de 22,6% em um ano, enquanto o banco de investimento, historicamente o carro-chefe, perdeu força.
Receita por área no 2T26 (variação anual)
| Área |
Receita |
Variação (ano) |
| Banco de investimento |
R$ 421 mi |
-46% |
| Crédito a empresas |
R$ 2,5 bi |
+19% |
| Crédito ao consumo (Pan) |
R$ 1,546 bi |
+74% |
Receita por vertical do BTG Pactual no 2T26. Fonte: Valor
O crédito puxa o recorde e o banco de investimento recua
No consolidado, o faturamento subiu 15,9% em doze meses e bateu a marca de R$ 10,371 bilhões. Por trás do número está uma troca de motor. A banca de investimento rendeu apenas R$ 421 milhões, tombo de 46% em doze meses, com um mercado de dívida travado por resgates em renda fixa e spreads mais altos. A área ainda cravou operações de peso, entre elas a estreia da Compass na bolsa, e foi o único nome latino-americano dentro da oferta de ações da SpaceX, mas o volume não segurou o tombo.
Quem tomou o lugar foi o crédito. A frente voltada a empresas faturou R$ 2,5 bilhões, alta de 19% no ano, com uma carteira que passou de R$ 288 bilhões e cresceu 21%. No varejo, a operação que abriga o banco Pan disparou 74% em receita, para R$ 1,546 bilhão, empurrada por spreads melhores e pela participação de 48% que o banco mantém na Meu Tudo. A rentabilidade sobre o patrimônio ficou em 26,7%, ainda entre as maiores do setor.
O alerta do CEO sobre o crédito ao consumo
A troca de motor virou o centro das perguntas na teleconferência. Roberto Sallouti, que comanda o banco, disse esperar que o crédito ao consumo piore antes de melhorar: a deterioração, segundo ele, chegaria mais cedo, mas foi adiada pelo gasto público que aqueceu a economia. “Os gastos do governo tiveram um crescimento mais forte com a aproximação do ciclo eleitoral, e isso não é sustentável para o próximo ano”, afirmou. “Em algum momento, a atividade vai desacelerar e, com o nível de endividamento das famílias, pode ser um ciclo mais complicado. Mas nada desastroso”.
A defesa do banco é a garantia. A originação no varejo foi puxada para linhas com colateral, terreno que ficou mais disputado depois que o BC discutiu um teto de juros no consignado privado. “Quase 95% da carteira [de varejo] tem colateral, seja financiamento automotivo ou consignado privado. Estamos superconfortáveis, a inadimplência está menor do que a gente vinha projetando”, disse Renato Cohn, vice-presidente financeiro. Mesmo assim, num pregão de forte queda na bolsa, as units recuaram 5,80% no dia.
O que observar
O trimestre ilustra um movimento que se repete entre bancos de perfil diverso: quando os mercados de capitais esfriam, a receita migra para o crédito, e o crédito se concentra em linhas com garantia. Vale acompanhar se o impulso fiscal, ao adiar a piora da inadimplência, não está apenas empurrando o risco para o ano seguinte, quando a atividade tende a desacelerar. A pergunta operacional é se carteiras de varejo coladas em consignado e financiamento automotivo seguram a rentabilidade num ciclo de renda mais apertada, ou se a conta aparece à medida que o endividamento das famílias avança.
Fontes: Valor • Seu Dinheiro • Let’s Money • Let’s Money