O crédito imobiliário segurou o balanço da Caixa no segundo trimestre. O banco público reportou R$ 3,9 bilhões de lucro recorrente no período, 5,9% mais que um ano antes, num trimestre em que o provisionamento para perdas de crédito quase dobrou, chegando a R$ 6,966 bilhões.
Caixa no 2º trimestre de 2026
| Indicador |
2T26 |
Comparação |
| Lucro recorrente |
R$ 3,9 bi |
+5,9% em 12 meses |
| Margem financeira |
R$ 19,7 bi |
+20,2% em 12 meses |
| Provisão para perdas |
R$ 6,97 bi |
+97,6% em 12 meses |
| Inadimplência total (90 dias) |
3,64% |
2,66% um ano antes |
| Inadimplência no agronegócio |
20,74% |
7,02% no 2T25 |
| Retorno sobre o patrimônio |
9,16% |
queda de 2,7 pontos |
Indicadores do balanço do 2º trimestre de 2026. Fonte: Agência Brasil
O imobiliário que sustenta o lucro da Caixa
A habitação responde por 69,4% da carteira total do banco e terminou junho em R$ 1,005 trilhão, 15% acima do ano anterior. Foi essa concentração que amorteceu o trimestre: no financiamento à casa própria, o atraso acima de 90 dias caiu para 1,45%, ante 1,60% três meses antes e 1,26% um ano atrás. De abril a junho, a instituição contratou R$ 137,6 bilhões em habitação, 29,3% mais que no mesmo intervalo do ano passado.
A leitura do próprio banco vai nessa direção. “A composição da carteira da Caixa apresenta forte concentração em crédito habitacional e operações com garantias consistentes. Isto traz níveis de perda esperada menores e resiliência à carteira […]”, aponta o balanço. O saldo já havia cruzado a marca de R$ 1 trilhão antes deste resultado, e o documento informa participação de 67,9% no mercado imobiliário, 1,1 ponto percentual acima de junho de 2025. Para bancar esse ritmo de originação, o banco procura fontes de captação além da poupança e do FGTS.
A conta que veio do agro
No agronegócio o sinal é oposto. O atraso acima de 90 dias chegou a 20,74% em junho, contra 18,29% três meses antes e 7,02% doze meses atrás, quase o triplo em um ano. A carteira rural soma R$ 62,3 bilhões, pouco mais de 4% do crédito total, proporção que contém o efeito no consolidado mas ajuda a explicar os R$ 6,966 bilhões provisionados no período, 97,6% acima do 2T25. O crédito comercial marcou 9,32%, e o consolidado subiu para 3,64%, de 2,66% um ano antes.
O aperto no campo não é exclusividade do banco estatal. Instituições com exposição rural vêm ajustando a régua de risco ao longo de 2026, e o BB passou a exigir garantia real em 63% das novas operações com grandes produtores do Plano Safra 2025/2026 depois de revisar sua projeção de lucro. No acumulado de janeiro a junho, o resultado recorrente da Caixa somou R$ 7,368 bilhões, 17,6% abaixo do primeiro semestre de 2025, com retorno sobre o patrimônio de 9,16%, 2,7 pontos percentuais menor que um ano antes. O lucro semestral do BB também recuou, ainda que por pressão em outra frente de crédito.
O que observar
O trimestre funciona como um teste de concentração de carteira. Uma instituição cuja maior fatia está em financiamento habitacional, com garantia real e atraso abaixo de 1,5%, absorve o choque de um segmento pequeno sem quebrar o resultado. A pergunta é até onde essa proteção se estica caso o ciclo do crédito rural continue se deteriorando e o provisionamento siga no ritmo dos últimos doze meses.
Vale acompanhar dois movimentos nos próximos balanços de bancos com exposição ao campo: o volume de renegociação das carteiras rurais e o custo de captação de quem depende de poupança para financiar crédito de prazo longo. Quando a despesa com provisão cresce mais rápido que a margem financeira, a diferença aparece primeiro no retorno sobre o patrimônio, antes de chegar ao lucro.
Fontes: Valor Econômico • Agência Brasil • Poder360