Quatro em cada dez CFOs de empresas de médio porte já discutiram, testaram ou usaram stablecoins, segundo pesquisa da PYMNTS Intelligence. O dado reforça uma tendência que chega ao Brasil em momento decisivo: o Banco Central enquadra operações com stablecoins no mercado de câmbio a partir de maio de 2026, e já classificou o tema como prioridade regulatória do ano.
Stablecoins vs. criptomoedas: adoção por CFOs mid-market
| Indicador |
Stablecoins |
Cripto |
| Discutiram, testaram ou usaram |
42% |
30% |
| Uso efetivo |
13% |
5% |
| Barreira regulatória citada |
67% |
77% |
| Conversão imediata para USD |
88% |
n/d |
Dados de CFOs de empresas de médio porte nos EUA. Fonte: PYMNTS Intelligence
Trilho de pagamento, não reserva de valor
O relatório “Stablecoins Gain Ground”, publicado em março pela PYMNTS Intelligence, mostra que CFOs tratam stablecoins como infraestrutura de pagamento, não como investimento. Os casos de uso mais citados incluem pagamento a fornecedores, transações cross-border e liquidação com parceiros financeiros. O fato de que 88% das empresas convertem stablecoins imediatamente para dólares confirma que o ativo funciona como trilho, não como reserva.
Empresas com menor incerteza operacional são as mais propensas a experimentar. A lógica é intuitiva: quando o negócio principal está estável, há margem para testar novos métodos de pagamento. A pesquisa indica que 12% das empresas acessam stablecoins por canais integrados a bancos, enquanto fintechs e autocustódia respondem por fatias menores. A preferência por bancos sugere que instituições tradicionais terão papel central na escala de adoção.
O contexto brasileiro: regulação como acelerador
No Brasil, o BC deu passos concretos que podem transformar o interesse dos CFOs em adoção real. As Resoluções 519, 520 e 521, em vigor desde fevereiro de 2026, criaram as SPSAVs (prestadoras de serviços de ativos virtuais), definiram regras cambiais para stablecoins e estabeleceram exigências de capital mínimo. A partir de maio, operações com stablecoins referenciadas em moeda estrangeira entram formalmente no mercado de câmbio, com IOF de 3,5%. O país é o maior mercado cripto da América Latina, com US$ 318,8 bilhões em transações de ativos digitais entre julho de 2024 e junho de 2025, segundo a Chainalysis. Autoridades estimam que mais de 90% do volume passa por stablecoins. O BC já revelou que stablecoins são prioridade imediata na agenda de ativos virtuais, ao lado de segregação patrimonial e staking.
O que observar
A pesquisa confirma um padrão que começa a se repetir em mercados regulados: interesse alto, execução baixa, barreira regulatória como principal gargalo. O gap entre os 42% que discutiram stablecoins e os 13% que efetivamente usam indica que a demanda existe, mas depende de integração com sistemas de tesouraria já estabelecidos. No Brasil, o enquadramento cambial e a exigência de autorização do BC podem funcionar como catalisadores: ao trazer stablecoins para dentro do perímetro regulatório, reduzem a incerteza que a própria pesquisa aponta como principal barreira.
A tese de que stablecoins funcionam como trilho invisível para o usuário final ganha corpo. Em análise no podcast Let’s Money, a leitura é de que “stablecoins com compliance chegarão ao Brasil em 2026” como mudança estrutural na infraestrutura financeira, e que empresas que atuam como camada de abstração tecnológica tendem a absorver stablecoins nos trilhos de pagamento sem que o cliente final precise saber qual tecnologia opera nos bastidores. Vale acompanhar se o prazo de outubro de 2026 para adequação das prestadoras de serviços de ativos virtuais acelera a adoção corporativa ou se a complexidade de compliance cria um novo gargalo.
Fontes: PYMNTS Intelligence • Exame • Chainalysis/FX Leaders • Let’s Money • Let’s Money Podcast