O estoque de crédito rotativo no cartão cresceu 31% em 12 meses, e o endividamento das famílias atingiu 50% da renda em dezembro de 2025. O governo prepara pacote de medidas para estimular migração para linhas mais baratas, com foco no consignado privado e pressão sobre taxas abusivas, após reunião convocada pelo presidente Lula com equipe econômica e estrategistas políticos.
ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS: O DIAGNÓSTICO
| Indicador |
Dez/2024 |
Dez/2025 |
| Endividamento/renda |
48,4% |
50,0% |
| Comprometimento com dívida bancária |
27,5% |
29,2% |
| Taxa do rotativo (ao ano) |
442% |
424% |
| Consignado privado (estoque) |
~R$ 40 bi |
R$ 83 bi |
Fonte: Banco Central, O Globo
O diagnóstico do Planalto
O governo avalia que a política de teto para juros do rotativo, implementada no fim de 2023 (limitando o crescimento da dívida a 100% do principal), não reduziu as taxas. A taxa do rotativo era de 442% ao ano antes da medida e agora está em 424%, praticamente estável. A leitura oficial é que a regra evitou que a dívida ficasse “imparável”, mas não alterou o custo do crédito para o consumidor.
Um estudo do Santander circulando entre técnicos do governo mostra que o ganho real de renda do trabalho cai pela metade quando se desconta o gasto com serviço de dívida. Esse cenário, combinado com o fim do ciclo de queda nos alimentos e a desaceleração da redução da inflação, está afetando a percepção do eleitor sobre medidas como a isenção de IR até R$ 5 mil.
Consignado privado como alternativa
O consignado privado já movimenta mais de R$ 110 bilhões e dobrou de tamanho após as medidas governamentais. Ainda assim, seu estoque de R$ 83 bilhões representa apenas um terço do consignado do INSS. Para o consignado privado, o governo descartou teto de juros e planeja um modelo inspirado no setor de combustíveis: identificar e sancionar casos de taxas anormais com base na média de mercado.
O governo também reconhece que as fraudes com descontos associativos investigadas pela CPMI do INSS afetaram a confiança no consignado para aposentados, empurrando consumidores para linhas mais caras. O crédito com cartão cresceu 16,1% em 12 meses, ritmo similar ao do crédito pessoal não consignado.
O que observar
A combinação de endividamento recorde, Selic elevada e ano pré-eleitoral cria pressão para que o governo adote medidas de alívio ao crédito, mesmo sob alertas do Banco Central sobre riscos de estímulos parafiscais. As medidas devem ser anunciadas nos próximos dias, e a eficácia dependerá de conseguir deslocar volume real do rotativo (424% ao ano) para linhas como o consignado privado (taxas entre 30% e 60% ao ano).
Para fintechs que operam consignado e crédito pessoal, a decisão de sancionar “taxas anormais” em vez de impor teto preserva a liberdade de precificação mas cria risco regulatório para operações fora da curva. O modelo de “pressão por sanção” é mais imprevisível que um teto fixo, e instituições com taxas acima da média do mercado podem enfrentar intervenção sem aviso prévio definido.
Fontes: O Globo • Banco Central • Let’s Money