Fintechs levam 67% dos aportes em startups no 1º semestre
Fintechs levaram 67% dos aportes em startups no 1º semestre de 2026, US$ 1,77 bilhão. Só duas das dez maiores rodadas do setor desde 2025 foram de equity.
Fintechs concentraram 67% dos aportes recebidos por startups brasileiras no primeiro semestre de 2026, o equivalente a US$ 1,77 bilhão, contra 62% no ano passado. O mapeamento é da Sling Hub. A fatia não foi a única coisa a mudar: as maiores rodadas do setor já não são de participação acionária.
A fatia das fintechs nos aportes em startups
Período
Fatia das fintechs
Volume captado
2025
62%
US$ 2,77 bi
1º semestre de 2026
67%
US$ 1,77 bi
Participação das fintechs nos aportes em startups no Brasil, segundo a Sling Hub. Fonte: Valor Econômico
Os aportes em startups deixaram de passar pelo equity
“Das dez maiores rodadas em fintechs entre 2025 e 2026, apenas duas são de equity”, disse João Ventura, CEO da Sling Hub, ao Valor Econômico. O que ocupou o espaço foram os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs), que aparecem ao lado de debêntures, notas promissórias e mútuos na lista de instrumentos que o setor passou a usar. São estruturas de dívida lastreadas em recebíveis, e não participação no capital.
A CloudWalk é um exemplo. Dona da InfinitePay, a empresa levantou R$ 5,5 bilhões ao emitir uma nova série de cotas do próprio fundo de recebíveis, em abril de 2026, na maior emissão de FIDC já realizada no mercado brasileiro. O Bradesco BBI coordenou a oferta. Participaram Itaú BBA e BTG Pactual, além de Safra, BV e UBS BB. Os bancos ocupam três posições nesse mercado ao mesmo tempo: investidores nas fintechs, prestadores de serviço para estruturar e lançar os fundos, e clientes.
O ano passado já apontava nessa direção. As fintechs brasileiras captaram US$ 2,77 bilhões em 106 rodadas em 2025, mais de 50% menos operações do que em 2021, segundo o relatório Panorama Regional das Fintechs, produzido pela Sling Hub com o Torq. O levantamento soma equity, dívida e FIDCs e deixa de fora doações, aberturas de capital e rodadas posteriores a elas. Seis das dez maiores captações de startups de 2025 foram de fintechs, e esse grupo concentrou 90% do dinheiro do recorte.
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Os bancos que sobraram no capital de risco corporativo
Do outro lado da mesa, o time de investidores encolheu. Os veículos de capital de risco mantidos por grandes empresas, conhecidos como CVCs, são hoje bem menos numerosos. “Eram uma centena de CVCs três anos atrás. Hoje são cerca de 70 registrados, com menos de 50 ativos de fato”, afirmou Juan Warley, da EY-Parthenon, ao Valor. Ainda assim, rodadas em que esse tipo de investidor entrou responderam por perto da metade de tudo o que foi para startups no país em 2025, e os braços ligados a bancos estão entre os que seguraram o ritmo.
Banco
Estrutura
Números declarados
Itaú
Itaú Ventures, criado em 2019
R$ 875 mi comprometidos; R$ 340 mi aportados em 11 empresas
Banco do Brasil
Cinco fundos desde 2020, três deles exclusivos
R$ 200 mi iniciais mais R$ 300 mi em 2025; cerca de 50 investidas
Bradesco
Fundo de venture capital, além de private equity e aquisições
R$ 1,2 bi sob gestão; 18 empresas
O Itaú Ventures prevê cerca de R$ 250 milhões em novos aportes em dois anos. O Banco do Brasil mantém nove investidas dentro dos três fundos exclusivos, e seis delas já viraram produto do banco. Uma é o BB Expenses, criado a partir da Payfy, que organiza gastos corporativos. Outra é o BB Crédito Realiza, linha de crédito que chegou ao checkout de lojas virtuais pela Pagaleve, especializada em dividir compras feitas por Pix.
O que observar
Se o funding do setor migra de participação acionária para estruturas de dívida com lastro em recebíveis, o critério de acesso ao capital muda de natureza: sai a expectativa de crescimento, entra a qualidade da carteira e a capacidade de originar volume. Vale acompanhar se os fundos de recebíveis seguem absorvendo cheques dessa ordem quando o ciclo de crédito virar, e o que sobra para as fintechs em estágio inicial, que ainda dependem de sócio.
A outra pergunta é de concentração. Uma fatia de dois terços em um único segmento deixa o restante do ecossistema disputando o terço remanescente, num momento em que menos de 50 fundos corporativos seguem ativos no país. Vale observar se o patamar se sustenta no segundo semestre ou se o primeiro foi efeito de poucas operações grandes, e se os bancos passam a preferir a posição de estruturador de dívida à de acionista.