Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central do Brasil, alertou no Primeiro Fórum Económico sobre a América Latina do Banco de España, em Roda de Berà, que a digitalização já transforma a transmissão da política monetária. No mesmo evento, Christine Lagarde enquadrou o Genius Act dos Estados Unidos como instrumento para garantir a dominância do dólar no mercado global de stablecoins.
Stablecoins: concentração e domínio do dólar
| Indicador |
Dado |
| Capitalização de mercado |
>US$ 300 bilhões |
| Denominadas em dólar |
98% |
| Fatia dos 2 maiores emissores |
~90% |
| Regulação da UE |
MiCAR (2024) |
| Regulação dos EUA |
Genius Act (2025) |
Fonte: Banco Central Europeu
Galípolo: política monetária sob pressão digital
Galípolo usou o fórum para alertar sobre os efeitos da digitalização nos instrumentos de política monetária. “A política monetária, em um regime de metas de inflação e câmbio flutuante, atua como nosso principal amortecedor, mas ela não opera no vácuo”, afirmou.
A digitalização, segundo ele, alterou a velocidade e a natureza da transmissão: “Precisamos reconhecer que a transmissão da política monetária está sendo transformada pela digitalização. Quando discutimos a taxa de câmbio, não estamos mais falando apenas de fundamentos comerciais, mas de uma percepção de risco que se altera em segundos.”
A leitura europeia do Genius Act
Lagarde colocou a disputa regulatória em termos geopolíticos diretos. “A Lei GENIUS não é apenas uma medida de defesa dos consumidores e de estabilidade financeira”, disse ela. “A Administração dos Estados Unidos descreve-a explicitamente como um instrumento para ‘garantir a continuação do domínio mundial do dólar dos Estados Unidos’.” Em paralelo, Lagarde lembrou que o MiCAR “introduziu as criptomoedas estáveis no perímetro regulamentar em 2024” na Europa, com foco na integridade do sistema.
A adoção já avança fora do debate regulatório. No mercado B2B, a SquareFi lançou infraestrutura de pagamentos com stablecoins. No mercado institucional, a Aon passou a aceitar stablecoins como pagamento de seguros, sinal de que a adoção avança além dos casos de uso especulativos.
O que observar
Para bancos centrais de economias emergentes, a questão prática é avaliar em que medida instrumentos digitais denominados em moeda estrangeira reduzem a eficácia das ferramentas domésticas de política monetária. A velocidade de ajuste do câmbio a percepções de risco, citada por Galípolo, é o canal mais direto a monitorar, especialmente em episódios de estresse externo.
A divergência entre o modelo europeu restritivo e o modelo americano de expansão sem barreiras geográficas coloca os demais reguladores em posição de escolha: adotar stablecoins em dólar como infraestrutura de pagamentos ou desenvolver alternativas em moeda local. Como essa decisão avança nos próximos meses define o próximo capítulo da geopolítica monetária digital.
Fontes: Valor Econômico • Banco Central Europeu • Let’s Money • Let’s Money