O HSBC fechou o primeiro semestre com alta de 37% nas receitas locais no Brasil, depois de avançar 20% em 2025. O salto vem de um banco que só faz atacado por aqui: uma década atrás, a instituição tinha acabado de entregar todo o varejo brasileiro ao Bradesco.
A operação brasileira do HSBC depois do varejo
| Indicador |
Evolução |
| Base de clientes |
de cerca de 70 para mais de 800 |
| Equipe |
de 45 para mais de 200 funcionários |
| Receitas locais em 2025 |
+20% |
| Receitas locais no 1º semestre de 2026 |
+37% |
| Clientes chineses ativos (dez/2025 a jun/2026) |
+21% |
Números da operação brasileira apresentados pelo banco em 2026. Fonte: Valor Econômico
A década do HSBC no Brasil sem varejo
O Bradesco levou a operação brasileira inteira, com agências, seguros e gestão de recursos, por R$ 16 bilhões pagos na conclusão do negócio, em julho de 2016. O que sobrou virou outra coisa: em dez anos, a carteira saiu de cerca de 70 nomes para mais de 800 e a equipe foi de 45 a mais de 200 pessoas. Somando o que esses clientes geram nas unidades do banco lá fora, o resultado atribuído a eles mais que dobra.
Alexandre Guião, que preside a operação brasileira, não promete reabrir a porta. “No médio prazo, não acredito que exista a intenção de voltar ao varejo. O foco será crescer e continuar conquistando espaço no segmento de atacado”, afirmou. Jorge Arce, à frente da instituição na América Latina, vende o retorno como raridade no setor: “Poucos bancos deixam um país e voltam com o sucesso com que voltamos”, disse.
O vetor chinês e o que o banco não faz aqui
O motor mais novo tem passaporte chinês: entre dezembro de 2025 e junho de 2026, os clientes da China ativos na operação brasileira subiram mais de 21%. Quando um grupo chinês quer comprar uma empresa daqui, o crédito pode sair do balanço local ou das unidades na Ásia, na Europa e no México, e o caminho inverso vale para companhias brasileiras atrás de dinheiro em Hong Kong. É a mesma lógica de corredor que aparece no avanço de players chineses sobre os trilhos de pagamento brasileiros.
A oferta daqui se apoia em cinco pernas: banco transacional, trade finance, caixa, tesouraria e crédito, com a captação externa como prioridade na área de dívida. Em projeto, o exemplo que o executivo puxa é o pacote de US$ 1,5 bi que viabiliza a planta baiana da Acelen Renováveis, desenhada para tirar querosene de aviação e diesel verde da macaúba.
O que ficou de fora é revelador: renda variável e fusões e aquisições não entram no cardápio daqui, por decisão global de concentrar essas mesas em Ásia e Oriente Médio. É o mesmo eixo que levou o grupo a montar seu centro global de IA em Singapura.
No crédito, o juro alto cobrou seletividade: o executivo admitiu que o cenário empurrou a inadimplência para cima e apertou companhias, e que a carteira passou por revisão sem que isso travasse a expansão. “Quanto mais tempo os juros permanecerem elevados, mais tempo haverá desafios no mercado”, disse. As apostas seguem em obras de infraestrutura, na cadeia de óleo e gás e no agro, e há uma janela de emissões externas prevista para setembro de 2026.
O que observar
O caso interessa menos pelo tamanho e mais pelo desenho: um banco global que abandonou a disputa por conta corrente e voltou a crescer vendendo trilho internacional para poucas centenas de empresas. Carteira concentrada tem receita alta por cliente e nenhuma diluição de risco quando um setor inteiro tropeça, e é isso que a próxima virada de ciclo vai testar.
A pergunta operacional é como bancos estrangeiros de atacado vão arbitrar entre balanço local e estrutura no exterior conforme o fluxo asiático cresce: quando o crédito da aquisição sai de uma unidade fora do país, a operação brasileira contabiliza relacionamento, não ativo, e a régua de retorno muda. Vale observar também se o corredor vira porta de entrada para grupos asiáticos comprarem ativos por aqui em ritmo maior.
Fontes: Valor Econômico • Exame • Acelen Renováveis • CNBC