A fintech bilionária Jeeves lançou uma carteira digital combinada a um cartão corporativo lastreado em stablecoins. A implementação começa pela Argentina, que se torna o 26º país onde a empresa opera, e chega ao Brasil até o fim deste trimestre. A promessa: empresas latino-americanas pagarem fornecedores e funcionários no exterior sem estruturar entidade fora do país nem recolher IOF.
Roadmap do cartão corporativo em stablecoins
| Fase |
Status |
| Wallet digital |
Disponível nos 26 países |
| Cartão corporativo na Argentina (novo mercado) |
Início do rollout |
| Cartão corporativo no Brasil |
Previsto até o fim deste trimestre |
| Pagamentos suportados (1ª fase) |
Estados Unidos |
| Expansão para demais países da LatAm |
Até o fim de 2026 |
Declarações de Gustavo Gorenstein, CEO Brasil. Fonte: Startups.com.br.
Como funciona o cartão em stablecoin da Jeeves
A empresa carrega a wallet com saldos em stablecoins, sobretudo em dólar, segundo a comunicação do lançamento, e usa esse saldo para bancar despesas cotidianas do cartão físico ou virtual, sem passar pelo fluxo tradicional de remessa internacional. “Tem várias empresas que não têm presença global, mas que precisam pagar fornecedores fora ou têm funcionários em outros países que precisam usar o cartão corporativo. Essa iniciativa vai ajudar a destravar negócios, tornando esse processo mais ágil e barato”, disse Gustavo Gorenstein, CEO da Jeeves no Brasil, em entrevista ao Startups. Segundo ele, a expectativa é de aumento de 50% no volume transacionado.
A lógica é a mesma que a Jeeves vinha testando em trilhos internos. “Mais da metade do volume de pagamentos internacionais” da empresa já roda sobre stablecoins, segundo Gorenstein, com crescimento de quatro vezes a cada trimestre. O novo cartão apenas expõe esse trilho diretamente ao cliente corporativo. “Stablecoin é só o meio, só que mais barato e mais rápido”, resumiu.
Brasil como mercado prioritário
A chegada do cartão ao Brasil ainda neste trimestre é parte de uma aposta maior. A Jeeves já coloca o país no topo da sua lista de prioridades. No começo de 2025, a empresa classificava o Brasil no “top cinco” dos seus mercados, e o volume local cresceu quatro vezes em cerca de um ano, segundo o CEO. “O Brasil vai virar o maior mercado da Jeeves em pouco tempo. É o que mais tem crescido. O país tem abertura para inovação junto com uma necessidade de crédito, que nós atendemos dando também tecnologia e trazendo mais eficiência”, disse Gorenstein.
O pano de fundo é um mercado brasileiro em que a conversa sobre stablecoin saiu da periferia cripto e entrou no radar das tesourarias corporativas. Em pesquisa da Pymnts, 42% dos CFOs já avaliam stablecoins como trilho de pagamento, enquanto dados agregados globais apontam que o volume anual de liquidações em stablecoin passou de US$ 33 trilhões, puxado por uso corporativo.
O trilho vira produto
O lançamento da Jeeves se soma a uma leva recente de movimentos na mesma direção. A Circle lançou uma plataforma para bancos liquidarem pagamentos em stablecoin, a francesa Kulipa captou US$ 6,2 milhões para emitir cartões nativos de stablecoin e a OpenFX levantou US$ 94 milhões para montar câmbio instantâneo sobre stablecoins. O que era infraestrutura invisível virou linha de produto.
Em entrevista ao podcast Let’s Money em 2025, um executivo da Nomad descreveu o mesmo caminho que a Jeeves agora toma de forma explícita: “O cliente não deveria precisar se preocupar com como é que eu faço o dinheiro sair daqui para chegar lá”. Na época, a Nomad usava stablecoins por trás dos panos em processos internos sem expor o trilho ao consumidor final.
O que observar
O produto da Jeeves testa na prática quanto do benefício prometido chega ao cliente. Sem IOF no trilho e com liquidação em stablecoin, a economia aparente vem do custo cambial e do tempo de transferência. Vale acompanhar qual será o spread efetivo contra o dólar oficial, como ficará a custódia dos saldos em stablecoin, e se a fintech vai oferecer a mesma economia para tickets menores de empresas pequenas ou se o ganho ficará concentrado em clientes com volume alto.
Do lado regulatório, a janela é apertada. O Banco Central continua desenhando a regulação brasileira de cripto e stablecoins, e um produto corporativo que usa saldos em moeda digital para movimentar câmbio pode atrair atenção da Receita Federal no tratamento tributário. Operadores de cartão corporativo tradicional, empresas de câmbio e provedores de remessa internacional podem ter de recalibrar preços se o modelo Jeeves mostrar tração no primeiro semestre.
Fontes: Startups.com.br • Podcast Let’s Money