CENÁRIO ATUAL
O cenário traçado em nossa carta de março permanece, em linhas gerais, em curso. A guerra entre Estados Unidos e Irã vem durando mais tempo do que o mercado precificava, com sucessivos ciclos de avanço e recuo nas negociações. Apesar do prolongamento, o mercado americano tem absorvido o ruído com resiliência maior do que se esperava, sustentado sobretudo por uma temporada de resultados corporativos consistentemente positiva.
No campo cambial, frente às demais moedas, o dólar se fortaleceu com o avanço do conflito, de modo que o DXY chegou à região dos 100, para depois perder força, retomando a trajetória de enfraquecimento estrutural. Frente ao Real, no entanto, o movimento foi diferente: a moeda americana perdeu terreno consistentemente, beneficiada pelo diferencial de juros e pela condição do Brasil como exportador líquido de commodities, posteriormente sendo afetada pelo cenário eleitoral.
A persistência do petróleo próximo a US$ 100 mantém vivo um conjunto de riscos — inflação mais resiliente, compressão de margens e redução da rentabilidade esperada das carteiras globais. Apesar disso, o S&P 500 renovou máximas e atingiu a região dos 7.400 pontos, impulsionado pela surpresa positiva nos balanços.
No Brasil, o quadro foi distinto. Apesar do fortalecimento do Real, a bolsa entrou em território negativo após chegar próxima dos 200 mil pontos no mês passado, operando atualmente em torno de 180 mil, com correção mais severa entre as ações de menor capitalização. O fluxo estrangeiro perdeu intensidade. Parte desse arrefecimento, em nossa leitura, está diretamente ligada ao retorno do apetite por ativos americanos: a entrega corporativa nos Estados Unidos drenou parcela relevante do fluxo que vinha se direcionando a emergentes.
No campo inflacionário, os dados vêm em linha com o esperado, com leve viés altista. O IPCA de abril subiu 0,67% e acumula 4,39% em 12 meses, próximo ao teto da meta contínua de 4,50%, com resistência em serviços e alimentos.
A perspectiva para os juros se deteriorou de forma relevante. No início do ano, o Focus projetava Selic terminal próxima a 12,0% para o final de 2026; a projeção atual foi revisada para 13%, com casas de análise já projetando 13,50% — diferença significativa que segue pressionando o desempenho das empresas mais alavancadas. Vale lembrar, contudo, que o Brasil permanece como o país com o maior nível de juros reais do mundo, o que indica espaço amplo para flexibilização, desde que o quadro fiscal apresente sinais consistentes de melhora.
Esse é o ponto-chave da nossa leitura para os próximos meses: a evolução do cenário político como precondição para a melhora fiscal. Caso um candidato mais alinhado às pautas do mercado seja eleito ou demonstre força crescente nas pesquisas, o mercado tende a recuperar confiança na trajetória fiscal e a comprimir o spread entre juros nominais e inflação. O fechamento de juros reais é o principal vetor para destravar a performance dos ativos brasileiros, com benefício especial para small caps: cortes mais profundos de Selic atuam diretamente sobre valuation, serviço da dívida, custo de oportunidade e taxa de desconto das empresas, além de impulsionar a economia interna como um todo.






