Mastercard cria centro pan-africano de cibersegurança
Iniciativa pan-africana de cooperação em cibersegurança começa em 2026 por África do Sul e Nigéria, com Recorded Future e cobertura para 50 orgs no ano 1.
A Mastercard anunciou nesta terça (30/6) a criação do Africa Cybersecurity Centre of Excellence, programa pan-africano de cooperação em cibersegurança que começa a operar em fases em 2026, com primeira chegada à África do Sul e à Nigéria. O hub cobre até 50 organizações no primeiro ano e usa um feed de inteligência de ameaças da Recorded Future, subsidiária da Mastercard.
Três pilares e a aposta de escala
A iniciativa estrutura colaboração entre instituições financeiras, governos e empresas em torno de três frentes: inteligência sobre ameaças, troca de informação entre executivos de segurança (CISOs) e avaliação de prontidão ciber. A aposta é de escala: a economia digital africana deve chegar a US$ 1,5 trilhão até 2030, enquanto cerca de 35% dos incidentes ciber no continente chegam a ser reportados oficialmente, segundo dados citados pela própria empresa. A Mastercard atribui a subnotificação à imaturidade de processos, à baixa visibilidade técnica de incidentes e ao receio reputacional, combinação que fragmenta a leitura do risco regional e enfraquece a resposta coordenada.
“People don’t use what they don’t trust”, disse Michael Miebach, CEO da Mastercard, em comunicado. Para o executivo, a cibersegurança é “foundational” para resiliência econômica e crescimento no continente.
Africa Cybersecurity Centre of Excellence: destaques
Programa
Africa Cybersecurity Centre of Excellence
Primeiros países (fase 1)
África do Sul e Nigéria
Início do rollout
2026, faseado
Cobertura no primeiro ano
até 50 organizações
Threat intel feed
Recorded Future (subsidiária Mastercard)
Três pilares
Inteligência, colaboração entre CISOs, avaliação de prontidão
Economia digital alvo
US$ 1,5 trilhão (África, até 2030)
Incidentes reportados
~35% do total estimado
África do Sul: parcela de ataques no continente
~29% ransomware, ~40% phishing
Investimento Mastercard em ciber desde 2018
US$ 12,6 bilhões
Destaques do programa anunciado em 30 de junho de 2026. Fonte: Zawya (release oficial Mastercard).
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O paralelo brasileiro: o que falta aqui
O desenho lembra um gap que o sistema financeiro brasileiro ouviu em primeira pessoa em abril. Em entrevista ao Valor Econômico, Leandro Granja, CISO do Santander Brasil, avaliou que o país não tem mecanismo formal de troca de inteligência sobre ameaças cibernéticas e fica em desvantagem em relação a pares da União Europeia (que opera o DORA desde janeiro de 2025) e dos EUA (com o FS-ISAC voluntário e estruturado). Threat intel feed, colaboração entre CISOs e avaliação coordenada de prontidão são justamente os três componentes anunciados pela Mastercard na África, alinhados ao framework de cooperação setorial já em vigor na União Europeia (via DORA) e nos EUA (via FS-ISAC). São os mesmos pilares que ele apontou como ausentes no Brasil.
O tema também vem ganhando densidade regulatória doméstica. Em março, o Banco Central defendeu no Febraban Sec 2026 que cibersegurança deixe de ser subdivisão da área de TI e passe a ter reporte direto à alta gestão das instituições financeiras, dentro de um projeto regulatório com 16 iniciativas para o ano.
Por que África do Sul e Nigéria primeiro
A escolha das duas primeiras paradas reflete concentração de risco. Os dois países respondem por fatias relevantes dos ataques registrados no continente: a África do Sul concentra cerca de 29% dos ataques de ransomware e 40% dos incidentes de phishing reportados na África, segundo dados da própria Mastercard. A empresa diz já ter investido US$ 12,6 bilhões em cibersegurança desde 2018 e apoiado mais de 20 startups do setor.
O que observar
O hub recém-anunciado constrói infraestrutura de colaboração ciber a partir de uma operadora privada, em paralelo aos arranjos públicos e setoriais que reguladores e bancos vinham desenhando. Vale acompanhar se regiões emergentes ainda sem fórum formal de cooperação ciber no setor financeiro vão optar por aderir a hubs corporativos como esse, ou se preferem construir arranjos setoriais próprios, conduzidos por reguladores e associações bancárias. A pergunta que fica é se a primeira via encurta o ciclo de adesão em troca de dependência do operador, e se a segunda chega rápido o suficiente para o volume de ataques atuais.