No primeiro semestre de 2025, o Pix movimentou 36,9 bilhões de transações no Brasil, segundo o Banco Central, enquanto o Zelle americano registrou 2 bilhões de pagamentos e cerca de US$ 600 bilhões em valor no mesmo período, conforme a Early Warning Services. A comparação entre os dois sistemas voltou ao centro do debate depois que o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) afirmou em vídeo divulgado na quinta-feira (4) que o Zelle “é o Pix dos Estados Unidos” e sugeriu que mecanismos semelhantes serviriam de argumento em negociações comerciais com Washington.
Pix vs Zelle: a diferença estrutural
| Aspecto |
Pix |
Zelle |
| Modelo |
Infraestrutura pública (BC) |
Rede privada (Early Warning Services) |
| Lançamento |
2020 |
2017 |
| Acesso |
qualquer instituição autorizada pelo BC |
bancos e cooperativas aderentes (mais de 2.400) |
| Casos de uso |
P2P, lojas físicas e online, tributos, boletos, B2B |
P2P + pequenos negócios |
| Devolução |
MED (Mecanismo Especial de Devolução) |
cancelamento só se destinatário não cadastrado |
| Custo para PF |
gratuito |
varia por banco; maioria não cobra |
Comparativo estrutural. Fonte: InfoMoney
A comparação e o contexto político
“É o PIX dos Estados Unidos, aqui é o Zelle. Então dá pra você ir pra uma mesa de negociação com os americanos com bons argumentos”, afirmou Eduardo Bolsonaro no vídeo divulgado nas redes sociais. Em seguida, o ex-deputado negou ter defendido a substituição do sistema brasileiro pelo americano, segundo a cobertura do Gazeta do Povo. A fala ocorreu enquanto o ministro da Fazenda Dario Durigan afirmava que o Pix está “fora de questão” em negociações com os EUA, depois que o USTR acusou o Banco Central de conflito de interesses ao operar e regular a plataforma.
As diferenças além dos números
O Pix foi lançado em 2020 pelo Banco Central como infraestrutura pública. Qualquer instituição autorizada pelo BC pode oferecer a ferramenta, e o sistema cobre P2P, pagamentos em lojas físicas e digitais, contas de consumo, tributos, boletos e operações B2B. No primeiro semestre de 2025, foram 36,9 bilhões de transações, o equivalente a 50,9% de todas as operações de pagamento no período e a 26,5% do valor total movimentado, segundo levantamento do BC reportado pelo Mobile Time.
O Zelle, lançado em 2017, pertence à Early Warning Services, empresa controlada por Bank of America, Capital One, JPMorgan Chase, PNC Bank, Truist, U.S. Bank e Wells Fargo. Opera em rede privada de adesão bancária, com mais de 2.400 aplicativos participantes, e processou 2 bilhões de pagamentos e quase US$ 600 bilhões no primeiro semestre de 2025, alta de 19% em volume de transações e 23% em valor frente a igual período de 2024. Recentemente, o sistema começou a testar pagamento de contas em piloto com o Truist, movimento que aponta para ampliação além do P2P, mas ainda longe da abrangência do Pix.
O que observar
A comparação política tende a embaralhar diferenças estruturais que importam. Infraestrutura pública padronizada e administrada por autoridade monetária tem perfil distinto de uma rede privada de adesão bancária, em alcance, casos de uso e governança. A polêmica entra na agenda da disputa tarifária com os EUA num momento em que o Banco Central já estuda alternativas para viabilizar transferências internacionais. Vale acompanhar como reage o setor financeiro privado americano caso a tese da equivalência entre sistema público brasileiro e rede privada estrangeira ganhe corpo na narrativa política, e se a janela aberta pelo debate vai pressionar o BC a acelerar pontes com sistemas instantâneos estrangeiros antes que a discussão tarifária encerre o ciclo.
Fontes: InfoMoney • Gazeta do Povo • Mobile Time • Early Warning Services • Let’s Money: Durigan Pix fora • Let’s Money: EUA acusam BC • Let’s Money: Zelle piloto Truist