A QI Tech, unicórnio de infraestrutura financeira, comprou a Autobanking e entrou oficialmente no financiamento de veículos, mercado que liberou R$ 283,4 bilhões em crédito no Brasil ao longo de 2025. É a quarta compra da fintech e a primeira de uma ofensiva de consolidação que antecede um IPO na Nasdaq. O valor do negócio não foi revelado.
A compra da Autobanking em números
| Indicador |
Valor |
| Mercado de financiamento de veículos (2025) |
R$ 283,4 bi liberados, ~R$ 24 bi/mês |
| Autobanking hoje |
80+ empresas, ~1.000 lojas, ~R$ 50 mi/ano |
| Meta de receita (12 meses) |
~R$ 300 milhões |
| Aquisição na história da QI Tech |
A quarta (fintech fundada em 2018) |
Dados da operação e do mercado de crédito automotivo. Fonte: Bloomberg Línea
Uma entrada por infraestrutura, não por balcão
Criada em 2023, a Autobanking se conecta às concessionárias e revendas por software e age na hora da venda, quando a liberação do crédito, antes medida em dias, passa a sair em minutos. Fredy Evangelista e Heitor Orletti, que fundaram a plataforma, passam a integrar o quadro societário da compradora. O plano é ousado no papel: partir de um faturamento hoje na casa dos R$ 50 milhões por ano e mirar a marca dos R$ 300 milhões em doze meses.
O posicionamento pesa mais que o cheque. A empresa afirma não querer ser mais um banco de crédito para carros, e sim o encanamento que liga quem origina o empréstimo na loja a quem coloca o dinheiro. Esse é um terreno hoje dominado por bancos tradicionais, e a aposta da fintech é fatiá-lo com fundos de recebíveis e outras estruturas de securitização, onda que já levou o estoque de FIDCs a R$ 754 bilhões. Na briga por esse espaço, o crédito de automóveis vem atraindo novos entrantes que enfrentam bancos como BV e Santander.
A peça que faltava no tabuleiro do IPO
A compra confirma um movimento que a QI Tech vinha sinalizando ao mirar aquisições estratégicas. Em conversa com a Bloomberg Línea semanas atrás, Pedro Mac Dowell, que fundou e comanda a fintech, já havia posto números na estratégia: reservar até R$ 4 bilhões para comprar empresas e ganhar porte antes de estrear na bolsa americana, com a listagem na Nasdaq prevista para o meio de 2027 e uma avaliação almejada de US$ 15 bilhões.
Pelo desenho apresentado então, a Autobanking é só o começo: são esperadas ao menos três compras até o fim de 2026, com foco em reforçar frentes como a custódia de fundos de recebíveis (FIDCs) e as distribuidoras de valores independentes. Para bancar as transações, a companhia diz ter R$ 1 bilhão no próprio caixa e outros R$ 2 bilhões disponíveis em linhas de crédito, deixando o R$ 1 bilhão que falta para ser pago em ações, arranjo que, na leitura de Mac Dowell, amarra os fundadores das adquiridas ao trabalho de integração. A trajetória de compras vem de longe: a QI Tech já havia condicionado o IPO a não sair antes de 2027 e virou unicórnio em 2024.
O que observar
A aposta de entrar no financiamento de carros como infraestrutura, e não como financiador direto, joga o risco de balanço para os fundos que compram os recebíveis e mantém a fintech na condição de plataforma. Vale acompanhar se esse desenho aguenta a escala prometida: multiplicar por seis a receita de um ativo em doze meses depende de casar a originação no balcão da loja com o apetite de investidores desses fundos, e o custo de captar esse dinheiro oscila com os juros.
No pano de fundo, a lógica é de consolidação acelerada para compor tamanho antes de uma abertura de capital. A pergunta que fica é sobre a digestão: emendar várias aquisições em sequência, cada uma com integração estimada em mais de um ano, testa a capacidade de uma companhia de infraestrutura de padronizar sistemas e cultura sem perder a velocidade que sustenta a narrativa de crescimento.
Fontes: Bloomberg Línea • Let’s Money • Let’s Money • Let’s Money • Let’s Money