Com o choque de oferta da guerra do Irã elevando o preço do petróleo para a faixa de US$ 90, o Santander revisou sua projeção de Selic de 12,5% para 13,25% ao fim de 2026, elevou a inflação esperada para 5,1% e descartou a hipótese de cortes de 0,5 ponto percentual, passando a trabalhar apenas com reduções de 0,25 ponto por reunião do Copom.
Santander: revisão de projeções para 2026
| Variável |
Antes |
Depois |
| Selic (dez/2026) |
12,5% |
13,25% |
| Inflação 2026 |
4,5% |
5,1% |
| PIB 2026 |
1,5% |
1,8% |
| Câmbio (dez/2026) |
R$ 5,60 |
R$ 5,40 |
| Ritmo de corte (Copom) |
0,5 pp |
0,25 pp |
Revisão de cenário do Santander para 2026. Fonte: Valor Investe
Petróleo, inflação e câmbio na revisão
A linha central da revisão é o petróleo: o Santander passou a incorporar um preço médio de US$ 90 por barril até o fim do ano, reflexo direto do choque de oferta gerado pela guerra do Irã. O efeito se propaga em duas frentes: pelo preço direto dos combustíveis e pela inflação de serviços, que, segundo o economista Marco Antonio Caruso, “segue elevada, em torno de 4,5%, o que mantém a dinâmica inflacionária mais resistente”. Os bens industriais amortizam parte do choque, favorecidos por efeitos de base, mas não o cancelam. O FMI já havia alertado em março sobre os impactos da guerra no Oriente Médio para a inflação global.
A revisão para cima da inflação (de 4,5% para 5,1%) não vem sozinha: o PIB de 2026 também subiu, de 1,5% para 1,8%, sustentado por um setor exportador mais robusto com commodities mais caras e um mercado de trabalho ainda resiliente. O câmbio foi ajustado na direção oposta, de R$ 5,60 para R$ 5,40 ao fim do ano, refletindo o fluxo de exportações. Caruso ressalta, porém, que “o câmbio ainda deve permanecer pressionado pelos riscos idiossincráticos do Brasil no segundo semestre”.
O BC continua cortando, mas devagar
Com o cenário inflacionário mais pressionado, o Santander retirou a hipótese de cortes de 0,5 ponto na Selic. “Tiramos a hipótese de cortes de 0,5 ponto e passamos a considerar reduções de 0,25 ponto”, afirma Caruso. Com isso, a projeção para a Selic ao fim de 2026 foi de 12,5% para 13,25%, comparado ao Focus de março, que projetava a taxa em 12,13% após a escalada inicial da guerra.
Sobre a condução do BC, o banco não espera pausa no ciclo. “Existe uma abordagem balanceada do Copom nesta história, olhando com mais cuidado para cenários alternativos e para riscos menos desejáveis. O BC entende que ainda há uma gordura relevante de juro real e, por isso, poderia seguir reduzindo juros em ritmo gradual, condicionado à evolução do choque de petróleo e ao risco de propagação para as expectativas e para a inflação de serviços”, avalia Caruso. Uma Selic estacionada por tempo excessivo alimentaria riscos de crédito em 2027, o que, na visão do Santander, justifica cortes contínuos mesmo com inflação em revisão.
O que observar
Três variáveis merecem acompanhamento contínuo a partir desta revisão de cenário. A primeira é a trajetória do petróleo: um cenário de desescalada no Irã reverteria a premissa central da revisão, abrindo espaço para retomada dos cortes de 0,5 ponto. A segunda é a inflação de serviços: em 4,5%, ela sinaliza que o mercado de trabalho aquecido transmite renda para preços, um padrão que tende a ser mais persistente do que choques de commodity e que o BC acompanha com atenção especial.
A terceira variável é o câmbio no segundo semestre. A melhora de R$ 5,60 para R$ 5,40 na revisão é condicional ao fluxo de commodities: se os riscos idiossincráticos do Brasil se intensificarem, o câmbio pode inverter a direção e adicionar pressão à inflação por canais que não aparecem nos modelos de curto prazo. A combinação dos três fatores define se a Selic chegará a 13,25% ou se haverá revisões adicionais nos próximos meses.
Fontes: Valor Investe • Let’s Money • Let’s Money