O pico do uso da recuperação judicial no agronegócio ficou para trás, afirmou José Ramos Rocha Neto, VP do Bradesco, na Agrishow de Ribeirão Preto. No campo, 443 empresas agrícolas estavam no instrumento no terceiro trimestre de 2025, alta de 70% ante o mesmo período de 2024, enquanto o crédito bancário fica mais seletivo e o mercado de capitais emerge como alternativa em operações de maior porte.
Recuperação judicial no agro: trajetória e perspectiva
| Período |
Empresas em RJ |
Perspectiva |
| Q3 2025 |
443 empresas |
+70% vs Q3 2024 |
| 2026 |
Alta prevista |
Ciclo ainda em andamento |
| Meados de 2027 |
Estabilização esperada |
Projeção do Monitor RGF |
Dados do Monitor RGF sobre recuperações judiciais no agronegócio e projeção. Fonte: PensarAgro
Crédito mais seletivo e capitais como saída
Com juros elevados, o custo do crédito rural pressiona margens e torna o financiamento bancário mais criterioso. “Há culturas com margens mais apertadas, como soja e algodão, ao mesmo tempo em que o custo do crédito está mais elevado. É um momento que exige atenção”, afirmou Rocha. Segmentos como milho, café e proteínas ainda apresentam resultados mais positivos, sustentando o nível de atividade no campo, mas sem aliviar a pressão geral sobre o setor.
O mercado de capitais ganha espaço como alternativa ao crédito bancário, especialmente em operações de maior porte. “O mercado de capitais passa a ter um papel mais relevante nesse contexto, mas isso não reduz a importância dos bancos, sobretudo no atendimento mais próximo ao produtor”, disse Rocha. Para o Bradesco, a resposta inclui uma atuação mais consultiva, com agrônomos presentes em todas as agências e modais ligados ao campo. Em março, o banco expandiu o marketplace E-agro com montadoras, reforçando a estratégia de ecossistema para o produtor rural.
O ciclo da recuperação judicial e os dados que divergem
A declaração do VP vem após um ciclo de expansão acelerada das RJs no campo. O instrumento ganhou tração, especialmente no Centro-Oeste, e foi usado de forma inadequada em alguns casos. “Vemos agora o arrependimento de pessoas que fizeram mau uso da ferramenta. O pico ficou para trás”, afirmou Rocha. Produtores que recorreram à RJ enfrentam agora o desafio de recompor estrutura financeira e relações com credores.
Os dados de mercado oferecem outra perspectiva. O Monitor RGF registrou 443 empresas agrícolas em recuperação judicial no Q3 de 2025, alta de 70% em um ano, com projeção de que os pedidos continuem crescendo em 2026 antes de estabilizar a partir de meados de 2027. Em março, o Let’s Money reportou que o crédito privado avançou no agro mas começa a retornar ao equilíbrio, trajetória coerente com a leitura do Bradesco de que o pior momento passou.
O que observar
A avaliação de que o pico da recuperação judicial no agro ficou para trás é a leitura de um credor de grande porte sobre seu portfólio, não necessariamente um diagnóstico do mercado como um todo. Consultorias especializadas projetam pedidos ainda crescentes em 2026, com estabilização prevista somente para meados de 2027. A divergência é relevante: ela define o nível de seletividade que credores de menor porte, tradings e fornecedores de insumos vão aplicar nas próximas safras. Se o ciclo não realmente cedeu, a pressão sobre financiadores com menos capacidade de absorção de risco deve continuar.
A expansão do mercado de capitais no agro também merece atenção. Operações de maior porte migrando para CRAs, FIDCs e debêntures mudam a dinâmica de relacionamento entre produtores e credores: regras diferentes, públicos diferentes, instrumentos menos flexíveis em renegociação. Vale acompanhar se esse deslocamento concentra o crédito bancário nos menores produtores, aumentando a exposição do sistema financeiro justamente onde a capacidade de pagamento é mais vulnerável.
Fontes: CNN Brasil • PensarAgro • Let’s Money • Let’s Money