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Fintechs democratizaram crédito, mas spreads seguem altos

Selic e carga tributária mantêm spreads em 34,6 pp no Brasil, contra média global de 6 pp, mesmo após a entrada das fintechs no crédito.

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· 4 min

Atualizado em

Foto de Towfiqu barbhuiya na Unsplash

Fintechs democratizaram o acesso ao crédito no Brasil, mas a combinação de Selic elevada, carga tributária e custo de captação mantém os spreads bancários em 34,6 pontos percentuais, quase seis vezes acima da média mundial de 6 pontos, segundo CEOs que debateram o tema no FGV Money Lab.

O custo do crédito no Brasil (março-abril 2026)

Indicador Brasil Referência
Spread bancário 34,6 pp (mar/26) Média mundial: 6 pp
Crédito livre PF (taxa média) 61,5% a.a. Mar/2026
Cartão rotativo 428,3% a.a. Mar/2026
Endividamento das famílias 49,9% da renda (recorde) Fev/2026, BC
Famílias com até 3 SM endividadas 83,6%; 38,2% com atraso Abr/2026, CNC

Custo do crédito no Brasil. Fonte: Agência Brasil

Fintechs ampliam acesso, mas não derrubam spreads

Marcelo Torresi, CEO do Banco Paulista, descreveu o movimento das fintechs como positivo para a inclusão, mas insuficiente para alterar a dinâmica dos spreads. “Os novos entrantes, com custos menores e estruturas mais leves, contam com mecanismos tecnológicos eficientes, porém enfrentam perdas maiores e custos de captação mais elevados em comparação com os bancos tradicionais”, disse. O resultado é que algumas fintechs acabam direcionando crédito para tomadores de maior renda, enquanto a população de menor poder aquisitivo recebe crédito mais abundante, mas também mais caro. O crédito consignado privado, que já movimenta R$ 110 bilhões, é apontado por Torresi como um dos caminhos para reduzir as taxas nesse segmento.

A concentração do mercado nos grandes bancos permanece. Segundo Torresi, embora Nubank e Inter tenham se destacado, a maior parte das fintechs ainda depende de depósitos para financiar suas carteiras, o que encarece o custo de captação em relação aos bancos tradicionais. Ele questiona: “Se o governo, que tem o poder de emissão de moeda, oferece 15% ao ano, qual seria a taxa adequada para as demais instituições?” A questão aponta para um piso estrutural: com a Selic como referência de risco zero, qualquer instituição financeira precisa remunerar depositantes acima desse nível antes de emprestar.

Ciclo de endividamento e falhas sistêmicas

Ricardo Campos, CEO da Reach Capital, situou o problema no nível sistêmico. Para ele, a facilidade de acesso ao crédito impulsionada pela tecnologia e pelo Open Finance não foi acompanhada de avaliação adequada da capacidade de endividamento dos tomadores. “Contrasta-se a facilidade de acesso ao crédito com a complexidade e rigor exigidos para investimentos financeiros”, observou. O programa Desenrola, em sua segunda edição, tende a beneficiar os mesmos devedores, muitos com renda entre um e três salários mínimos, que contraem crédito para cobrir despesas básicas e não para consumo discricionário.

Para Campos, o problema não é ausência de educação financeira, mas de falhas estruturais: incentivos inadequados, características dos produtos e assimetria de informações. “Uma maior regulação pode aumentar a transparência na concessão de crédito. No entanto, a combinação de renda insuficiente e facilidade de acesso ao crédito perpetua o problema do endividamento”, disse. O ciclo é reforçado pelos próprios incentivos das instituições: os juros pagos pelos bons pagadores cobrem as perdas com inadimplência, e o modelo é lucrativo enquanto as taxas permanecerem elevadas, o que remove pressão para reduzi-las. Iniciativas como o Pix Parcelado ampliam as modalidades disponíveis, mas Idec e outros alertaram para riscos adicionais de superendividamento.

O que observar

A trajetória da Selic é a variável de maior impacto sobre os spreads bancários: cortes na taxa básica aliviam o custo de captação de todas as instituições, mas o histórico mostra que reduções não se transmitem de forma proporcional às taxas cobradas dos consumidores, especialmente nos produtos de alto risco. A questão central é se o arcabouço regulatório em discussão conseguirá impor critérios de avaliação de capacidade de pagamento sem criar atrito que reduza o acesso ao crédito para a população de menor renda.

Vale monitorar também se o Desenrola em sua segunda edição conseguirá romper o ciclo ou apenas postergar dívidas para os mesmos tomadores. O modelo atual, em que os juros dos bons pagadores cobrem as perdas com inadimplência, tem incentivos estruturais para manter spreads elevados enquanto a rentabilidade das carteiras for suficiente. A convergência entre Open Finance, digitalização e eventual revisão da tributação das instituições financeiras é o cenário em que uma redução mais expressiva dos spreads se tornaria viável.

Fontes: EstadãoAgência BrasilLet’s MoneyLet’s Money

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