O seguro auto movimentou R$ 61,6 bilhões em 2025, e a inteligência artificial reduziu a análise de risco por segurado de 4 horas para 1h28, segundo dados da Susep e CNseg. O avanço tecnológico mira o gargalo histórico que trava a cobertura em 30% da frota nacional há décadas.
Seguro auto no Brasil: os números de 2025
Indicador
Dado
Arrecadação em 2025
R$ 61,6 bi (+6,8% vs 2024)
Participação no ramo danos
42,6%
Penetração na frota nacional
~30% (cerca de 20 milhões de veículos)
Frota de blindados em 2025
40 mil (era 10 mil em 2013)
Tempo de análise de risco com IA
1h28 (antes: 4 horas)
Dados do setor em 2025. Fonte: Valor Econômico (Susep/CNseg)
Frota complexa, cobertura estagnada em 30%
Com 42,6% da arrecadação do segmento de danos e responsabilidades, o seguro auto é o principal produto do setor, mas enfrenta um teto estrutural: a cobertura estagna em torno de 30% da frota há décadas, o equivalente a 20 milhões de veículos. No primeiro trimestre de 2026, o BYD Dolphin Mini, modelo 100% elétrico, assumiu a liderança de vendas no varejo, simbolizando a mudança no perfil da frota.
Marcas entrantes dobraram a participação de mercado, de 8% para 16%, em três anos, segundo Fenabrave e Jato Dynamics. O mercado de Associações de Proteção Veicular (APVs), que operava à margem do sistema e respondia por cerca de 8% da frota, foi integrado à regulamentação da Susep desde 2025, abrindo novo vetor de captação.
“A frota de blindados chegou a 40 mil em 2025, contra 20 mil em 2021 e 10 mil em 2013. Dobrou em oito anos e depois dobrou em quatro”, disse Rafael Ramalho, vice-presidente de auto do Grupo HDI. Essa diversificação pressionou a pulverização do portfólio: apólices vão de cerca de R$ 200, para assistência 24 horas, a mais de R$ 40 mil para coberturas completas de veículos de alto valor.
Desde 2023, algumas seguradoras elevaram o teto de importância máxima segurada de R$ 600 mil para R$ 2 milhões, passando a cobrir esportivos e blindados com até cinco anos de uso que antes encontravam resistência no mercado.
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IA transforma precificação no seguro auto
A transformação mais profunda ocorre na modelagem de risco. Em fevereiro, o Let’s Money reportou que seguradoras planejam investir R$ 2,6 bi em IA até 2026, e os efeitos já aparecem na operação: o tempo de análise de risco para aceitar ou recusar um segurado caiu de 4 horas para 1h28. Processos de vistoria também mudaram, com aplicativos que orientam o cliente sobre os ângulos das fotos e IA que valida se as imagens estão adequadas para análise.
“A estrutura de tarifas era simples. Cabia numa tabela impressa. Hoje, consideramos bilhões de variáveis”, disse Fábio Morita, diretor executivo da Allianz Seguros. O avanço inclui sistemas de assistência ao motorista (ADAS), que reduzem a frequência de colisões de baixa velocidade, mas encarecem cada reparo pela presença de sensores e câmeras nos para-choques e para-brisas.
Veículos elétricos adicionam outra camada de incerteza: o histórico de sinistros com esses modelos ainda é curto para calibrar a precificação com precisão, o que mantém o setor em fase de coleta intensiva de dados. O SeguroHub, que usa Open Insurance para qualificar leads, é exemplo da combinação de dados abertos com IA no mercado de seguros.
O que observar
O setor de seguros auto vive uma dinâmica de precificação em transição: as ferramentas são mais sofisticadas, mas a base histórica de sinistros para os novos perfis de veículo é limitada. O gargalo não é tecnológico; é de dados. Corretoras e seguradoras que aceleram a coleta de sinistros em frotas eletrificadas e blindadas saem na frente na calibração dos modelos de risco. Vale acompanhar se a elevação dos tetos de cobertura e a captação do público de APVs conseguirá, de fato, mover a agulha de penetração além dos 30% que resistem há décadas.
A tensão entre ADAS e custo de reparo é o ponto mais crítico para a sinistralidade nos próximos anos. Sistemas que reduzem a frequência de colisões podem coexistir com ticket médio de reparo mais alto, caso os sensores e radares dos novos veículos se confirmem tão caros quanto o setor antecipa. Os dados do ramo apontam crescimento consistente, mas a expansão da cobertura depende de produtos acessíveis que alcancem o público de menor renda ainda fora do mercado formal de seguros.