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Bet ou investimento? Prediction markets testam mercado Brasileiro

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· 7 min

Atualizado em

Foto: Abner Garcia / Let's Money

2026 é ano de copa do mundo. E quem nunca participou de um bolão em ano de copa? Faltando menos de 3 meses para o pontapé inicial, as cartelas já começam a se formar e os mais entusiasmados já começam a fazer suas apostas. Ou seriam investimentos? Afinal, o que diferencia uma coisa da outra?

Antes de seguirmos, como o assunto é delicado, aqui um disclaimer é necessário: esse texto não é uma opinião. Meu objetivo é colocar as cartas na mesa e você, caro leitor, vai escolher com quais quer jogar (ou investir).

Dito isso, vamos ao fato que foi gatilho para escrever esse texto. A XP anunciou oficialmente uma parceria com a Kalshi para oferecer prediction markets para seus clientes. Se você ainda não sabe o que são prediction markets, eles são exatamente o que dizem ser: mercados criados para que seus usuários tentem predizer a probabilidade de certos eventos acontecerem. No momento em que esse artigo está sendo escrito, por exemplo, o mercado acredita que existe 46% de chance de que Taylor Swift e Travis Kelce se casem até junho de 2026. “Ok, mas porque estamos falando disso em uma coluna num portal de finanças?”, você pode perguntar. Porque a Kalshi, Polymarket e outras empresas que atuam nesse nicho permitem que você invista (ou aposte) nessas probabilidades. E é aí que a confusão começa.

Funciona assim: se você é um(a) “swifter” e acredita no amor da diva pop americana, você pode acessar a Kalshi e colocar seu dinheiro em um “fundo” onde outras pessoas que acreditam que o “sim” vai rolar até junho de 2026 também fizeram aportes. Se o casório rolar na data esperada, o valor total do fundo é dividido proporcionalmente entre os “cotistas”, mas se uma chuva inesperada adiar a cerimônia para o mês seguinte, o valor da cota deste “fundo” vai a zero, perde a liquidez e, por consequência, os “cotistas” perdem o dinheiro investido (ou apostado). É como um bolão de copa do mundo ou mega-sena. Ou seria como um derivativo negociado em bolsa?

Derivativos são produtos de investimento reconhecidos pela CVM cujo valor “deriva” de outro ativo. Existem diversos tipos de derivativos: contratos futuros, opções, swaps… Imagine um contrato futuro de café, por exemplo. O café é um ativo, tem valor de mercado e, como todo ativo, seu preço flutua de acordo com a oferta e a demanda. Agora, imagine que essa flutuação não agrada em nada à Starbucks, que quer mais previsibilidade nos seus resultados. Seria ótimo para a Starbucks se ela tivesse uma garantia de que, daqui 6 meses, a saca de café custará X reais, aconteça o que acontecer. A Starbucks pode, então, firmar um contrato com o produtor de café para que, daqui 6 meses, ela tenha direito a comprar a saca de café deste produtor por X reais. Se em 6 meses, a cotação do café no mercado for 2X, a Starbucks se deu bem, comprou um ativo pela metade do seu valor de mercado e se protegeu da flutuação dos preços. Essa “proteção” é o que o mercado chama de “hedge”. Agora, se em 6 meses a cotação do café for 0,5X, quem se deu bem foi o produtor, que vendeu o café pelo dobro do preço. Esse contrato firmado entre o comprador e o vendedor é o que chamamos de “contrato futuro” e ele é um produto de investimento negociado em bolsa. Ou seja, se você achar que, daqui 6 meses, o valor da saca de café será 0,5X, você pode comprar esse contrato do vendedor, ganhar o direito de vender café para Starbucks por X e embolsar a diferença. Ou, se você achar que, daqui 6 meses o valor da saca de café será 2X, você pode comprar esse contrato da Starbucks por 1,5 X, ter o direito de comprar o café por X e depois revender esse café pelo preço de mercado dele (2X) e embolsar os 0,5X de diferença. No fim das contas, você está investindo no preço do café. Ou estaria apostando?

Essa dúvida pairava até mesmo sobre as cabeças dos reguladores até o início do século. Até 2002, derivativos eram considerados apostas no Brasil. Por isso, só podiam ser negociados derivativos relativos à entrega ou não de um ativo físico (como sacas de café). Com a modernização regulatória isso mudou e, hoje, a bolsa negocia derivativos de ações, moedas estrangeiras e até de bitcoins. Mas existe um outro mercado que é legalizado no Brasil há mais de 40 anos: corridas de cavalo.

Desde 1984 você, caro leitor, pode apostar (ou investir) no turfe legalmente no Brasil. Isso porque fazer um aporte junto a outros indivíduos que também acreditam que Pé de Pano é capaz de correr 300 metros mais rápido que Pata Manca é considerado um contrato de investimento coletivo (CIC). Os investidores (ou apostadores) aportam dinheiro em um empreendimento incerto e, caso o empreendimento dê certo, ou seja, o cavalo escolhido vença, os cotistas dividem o valor total aportado de maneira proporcional. Veja bem, o CIC é regulamentado pela CVM e segue regras rígidas: não pode ser negociado em bolsa e não pode ser amplamente ofertado, nem pode oferecer previsão de retorno. Tudo isso para proteger o investidor (ou apostador).

A grande dualidade regulatória é que as empresas de prediction markets defendem que o casamento da Taylor Swift tem mais a ver com sacas de café e corridas de cavalo do que com as bets tradicionais. E o principal argumento para isso é que prediction markets não tem “banca”. A banca é o apelido carinhoso que os apostadores (ou investidores) dão ao algoritmo que as casas de apostas usam para definir as probabilidades para um evento acontecer ou não (as chamadas “odds”). Na visão das empresas de prediction markets, isso faz com que o risco das apostas seja fabricado, ou seja, ele parte de uma definição inicial da banca e, a partir de então, flutua de acordo com N variáveis calculadas, incluindo o volume de apostas. Nos prediction markets, as probabilidades de um evento ocorrer ou não ocorrer começam iguais, 50% para cada lado, e, a partir daí, flutuam de acordo com o volume de aportes em cada lado. Quem defende os prediction markets alega que os riscos dos eventos desse mercado são naturais, já existiam antes mesmo do nascimento de empresas como Kalshi e Polymarket e que essas empresas somente criaram um mercado para transferência desses riscos. Até mesmo o Federal Reserve, equivalente ao Banco Central nos EUA, já publicou um estudo concluindo que prediction markets refletem de maneira tão natural os riscos de um determinado evento que poderiam se tornar importantes estatísticas para ajudar a guiar a política monetária do país, como a definição da taxa de juros. Por lá, prediction markets são regulados como derivativos.

É fato que, hoje, 90% do volume de aportes mundial em prediction markets é direcionado a eventos esportivos, argumento usado por quem defende que Kalshi e Polymarket são nada menos que bets disfarçadas com uma roupa chique para não precisar pagar a outorga de R$ 30 milhões e os altos impostos que as casas de apostas reguladas pagam para atuar no Brasil. Em um país em que quase 25% dos apostadores consideram as apostas esportivas um tipo de investimento financeiro, essa dualidade fica ainda mais latente.

A conclusão aqui é que ainda não existe conclusão. Essa discussão deve se estender por alguns meses até que Kalshi, Polymarket e outras comecem a operar de maneira regulada aqui no Brasil. Enquanto isso, a parceria entre XP e Kalshi só vai disponibilizar os prediction markets para clientes da Clear Corretora com conta internacional, mantendo as operações 100% offshore enquanto não há segurança jurídica sobre o tema no Brasil. De qualquer maneira, é a primeira “aposta” de prediction markets no mercado brasileiro. Ou seria um “investimento”?

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