A CVC Capital Partners avalia uma oferta de € 9 bilhões para fechar o capital da Nexi, empresa de pagamentos com sede em Milão. Seria a 3ª tentativa da CVC de adquirir a companhia, depois de abordagens em 2015 e 2023. A proposta só avança se o governo italiano der sinal verde.
CVC e Nexi: três tentativas em dez anos
| Ano |
Movimento |
| 2015 |
Primeira abordagem da CVC à Nexi |
| 2023 |
Segunda tentativa de aquisição |
| 2026 |
Terceira avaliação: oferta de €9 bilhões, condicionada a apoio político |
Histórico das tentativas da CVC de adquirir a Nexi. Fonte: Finextra
Queda de 65% e a janela para o private equity
A Nexi acumula uma queda de cerca de 65% no preço de suas ações nos últimos quatro anos, pressionada pela alta de juros e pela concorrência crescente no mercado europeu de pagamentos. O recuo criou uma janela de entrada para gestoras de private equity que apostam em uma recuperação operacional fora do mercado de capitais. A CVC, que já estuda a Nexi há pelo menos uma década, é a que chegou mais perto de apresentar uma proposta concreta.
O negócio envolveria fechar o capital da companhia e reestruturá-la como empresa de software, separando o negócio de banco digital, considerado ativo estratégico pelo governo italiano. Esse braço seria transferido para um investidor apoiado pelo Estado, como condição para viabilizar politicamente a transação. A Nexi passaria a operar como plataforma de tecnologia, não mais como provedora de serviços financeiros regulados, o que reduziria a exposição ao escrutínio soberano.
O “poder de ouro” que pode travar o negócio
A Itália mantém regras de “poder de ouro” que conferem ao governo a capacidade de bloquear ou condicionar aquisições de ativos considerados estratégicos, como infraestrutura bancária. A Nexi se enquadra nessa categoria. Segundo a Finextra, uma fonte dentro da CVC descreveu a situação como “inteiramente política neste momento”, sinalizando que qualquer proposta formal depende de alinhamento com o governo antes de ser apresentada aos acionistas.
A Hellman & Friedman, principal acionista da empresa, “afirmou que ainda não recebeu nenhuma proposta, mas que responderia a uma oferta caso surgisse alguma”, segundo o Financial Times. Já o fundo estatal italiano CDP, segundo maior acionista, não seria favorável a uma possível exclusão da bolsa. A resistência do CDP, que investe a poupança nacional, representa o principal obstáculo interno ao negócio. A Nexi também é referência no setor, como mostrou sua parceria com o Google Cloud para infraestrutura de pagamentos anunciada em março de 2026.
O que observar
A movimentação recoloca em pauta uma tensão estrutural no mercado europeu de pagamentos: infraestrutura de processamento construída ao longo de décadas, hoje com valuation deprimido, está atraindo capital privado disposto a reestruturar fora dos mercados públicos. A pergunta central não é se haverá oferta, mas se os governos aceitarão o trade-off entre desinvestimento estatal e eficiência operacional. O caso italiano é emblema desse dilema: quanto mais estratégico o ativo, menos flexível o Estado para aceitar termos de mercado.
Vale acompanhar também como a dependência das fintechs europeias de capital estrangeiro evolui nesse contexto. Se gestoras de private equity continuam sendo o principal vetor de consolidação no setor, a discussão sobre soberania digital tende a se intensificar em outros mercados europeus com ativos de pagamento semelhantes.
Fontes: Finextra