O BCE não vai competir com stablecoins em dólar lançando versões em euro. Em discurso no Fórum Econômico Latam do Banco de España, a presidente Christine Lagarde descartou a proposta como ineficiente para fortalecer a moeda e apresentou o projeto Pontes e o roteiro Appia como alternativa europeia, com início de operações previsto para setembro de 2026.
Roteiro BCE: tokenização sem stablecoin
| Projeto |
Prazo |
O que entrega |
| Pontes |
Set 2026 |
Liquidação atacado DLT em moeda de banco central, conectada ao TARGET |
| Appia |
2028 |
Ecossistema financeiro europeu tokenizado e interoperável |
Roteiro de tokenização do BCE. Fonte: Finextra
Por que o BCE rejeita a stablecoin em euro
O mercado global de stablecoins saiu de menos de US$ 10 bilhões há seis anos para mais de US$ 300 bilhões hoje, e os Estados Unidos apostaram explicitamente na tendência: a Lei GENIUS, aprovada no Congresso americano, apoia versões atreladas ao dólar como instrumento de dominância monetária. Em resposta, um consórcio de grandes bancos europeus trabalha em uma versão privada do euro digital, iniciativa que coexiste com o projeto público do BCE, que pressiona por seu próprio euro digital até 2029.
Lagarde rebateu o argumento de que a Europa precisa de stablecoin em euro para evitar a dolarização digital. Segundo ela, os defensores da proposta confundem duas funções distintas: a função monetária (qual ativo serve de âncora) e a função tecnológica (em qual infraestrutura as transações rodam). Separar as duas revela que a segunda não exige a primeira. “Se quisermos fortalecer o apelo internacional do euro, as stablecoins não são uma maneira eficiente de fazê-lo”, afirmou a presidente do BCE.
Pontes em setembro, Appia até 2028
No lugar das stablecoins, o BCE propõe uma âncora pública. A partir de setembro, o projeto Pontes vai oferecer liquidação por atacado conectando plataformas de registro distribuído (DLT) ao TARGET, o sistema de liquidação europeu, garantindo que transações baseadas em blockchain possam ser liquidadas em dinheiro de banco central desde o início. O raciocínio: se o euro do banco central estiver disponível nativamente on-chain, os participantes do mercado não terão motivo para recorrer a um substituto privado estrangeiro.
O roteiro Appia, publicado em março de 2026, vai além e traça o caminho para um ecossistema financeiro europeu tokenizado e interoperável até 2028. O paralelo com o Drex brasileiro é direto: o Banco Central do Brasil também prevê integrar Pix, Drex e Open Finance até 2029, posicionando a moeda de banco central como âncora para transações tokenizadas. “Nossa tarefa não é replicar instrumentos desenvolvidos em outros lugares, mas construir as bases e a infraestrutura que atendam aos nossos próprios objetivos, para que possamos aproveitar os benefícios da inovação sem importar as fragilidades”, disse Lagarde em discurso na Espanha.
O que observar
O prazo de setembro para o Pontes é concreto e curto. O teste real será se a infraestrutura de banco central consegue oferecer liquidação DLT com a agilidade que plataformas privadas já entregam. Projetos de infraestrutura pública em tokenização têm histórico de atrasos em múltiplas jurisdições, e qualquer deslize no cronograma do Pontes vai reforçar os argumentos do consórcio bancário privado que trabalha na alternativa. A presidente do BCE antecipou a crítica ao defender que a questão não é qual instrumento privado vai prevalecer, mas se existe uma âncora comum.
O impasse entre stablecoin e CBDC como camada de liquidação é a mesma questão que divide reguladores em todo o mundo. Vale acompanhar se o roteiro Appia para 2028 consegue travar o debate antes que as stablecoins em euro já tenham massa crítica de adoção, tornando o ecossistema privado difícil de deslocar, como aconteceu com o dólar digital no mercado de cripto global.
Fontes: Finextra • Let’s Money • PYMNTS