Os quatro maiores bancos do Brasil registraram R$ 44,8 bilhões em custo de crédito no primeiro trimestre de 2026, alta de 33% frente ao mesmo período do ano anterior, pressionados pela combinação de Selic a 15%, endividamento recorde de empresas e famílias e a adoção plena da Resolução CMN 4.966, que antecipou o reconhecimento contábil de perdas esperadas.
Indicadores de crédito dos 4 maiores bancos no 1T26
| Banco |
Custo de crédito / Inadimplência |
Variação / Destaque |
| Banco do Brasil |
R$ 18,9 bi (custo de crédito) |
+86% a/a; inadimplência rural 6,22% (+3,46 pp) |
| Santander |
Inadimplência >90d: 3,3% |
+0,6 pp em 12m (maior piora entre privados) |
| Bradesco |
Custo de crédito: 3,5% |
+0,1 pp; meta ~3,3% para o ano |
| Itaú Unibanco |
Inadimplência >90d: 1,9% |
Estável; PMEs com piora pontual (FGI) |
Indicadores de crédito do 1T26 por banco. Fonte: Investidor10
Selic no pico e CMN 4.966 elevam provisões 33% no trimestre
O custo de crédito consolidado dos quatro bancos cresceu 33% na comparação anual, um resultado que combina o efeito monetário da Selic a 15% com a mudança de regime contábil imposta pela Resolução CMN 4.966. Implementada em janeiro de 2025, a norma exige que as instituições provisionem perdas esperadas antecipadamente, em vez de esperar a concretização do calote, o que tornou a classificação de risco mais rigorosa e o provisionamento mais imediato.
A inadimplência total do crédito no Brasil alcançou 4,3% em março, ante 3,3% em março do ano anterior, segundo dados do Banco Central. “Estamos em um momento de inflexão do ciclo, com o efeito atrasado da política monetária. Isso ainda deve causar algum dano ao longo de um período”, avaliou Nícolas Merola, analista da EQI Research. Em paralelo, casos pontuais em carteiras de grandes empresas afetaram o desempenho dos bancos, num cenário que inclui companhias com processos de recuperação extrajudicial recentes, como o Grupo Pão de Açúcar e a Raízen.
BB abre vantagem com +86%; privados registram ritmos distintos
O Banco do Brasil concentrou R$ 18,9 bilhões do total, com alta de 86% na comparação anual, puxado pela deterioração do crédito rural: a inadimplência agropecuária passou de 2,76% para 6,22% nos atrasos acima de 90 dias. Do montante provisionado, R$ 7,4 bilhões foram destinados ao agronegócio. O banco esperava recuperar entre R$ 2 bilhões e R$ 2,5 bilhões em créditos baixados, mas obteve apenas R$ 1,2 bilhão. “As esteiras ainda estão sendo normalizadas. Já nos antecipamos e reforçamos a provisão, principalmente para a carteira de cartão de crédito”, afirmou Geovanne Tobias, CFO do banco.
No Santander, a inadimplência avançou 0,6 ponto percentual em 12 meses para 3,3%, a maior piora entre os pares privados. O CEO Mario Leão afirmou não haver “preocupação estrutural”, mas indicou atenção especial a PMEs, agronegócio e alguns portfólios de cartões. No Bradesco, a variação foi de 0,1 ponto percentual, com custo de crédito em 3,5% e meta de convergência para cerca de 3,3% ao longo do ano. Para analistas do Citi, essa é a principal linha a monitorar: “Nossa percepção é que o custo do risco deve continuar pressionado nos próximos trimestres, já que o crédito para o segmento de varejo de massa deve seguir demandando um volume maior de provisões.” A evolução do ROE do Bradesco depende da trajetória desse indicador, num setor que absorve ainda o impacto de até 1,9% no lucro em 2026 das contribuições ao FGC.
No Itaú Unibanco, o índice de inadimplência ficou estável em 1,9%, mas houve piora entre micro, pequenas e médias empresas, impulsionada pelo fim do período de carência do FGI. O presidente Milton Maluhy Filho projeta acréscimo de 0,1 a 0,2 ponto percentual à frente. “Apesar desse aumento observado e absolutamente esperado, os índices seguem em patamares muito abaixo do que observávamos em anos anteriores, e com a perda esperada e rentabilidade em linha com as expectativas”, afirmou.
O governo lançou o Novo Desenrola para trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos e dívidas de até R$ 15 mil em atraso entre 90 dias e dois anos, com descontos de até 90% garantidos pelo FGO. O programa foi bem recebido pelos bancos, mas o impacto para as grandes instituições deve ser limitado, conforme reportagem do Broadcast. Para o JPMorgan, as medidas não resolvem a alavancagem de forma estrutural, mas podem ajudar a recuperar parte dos créditos perdidos: “Acreditamos que o Nubank será o maior vencedor”, afirmou o banco americano. Os efeitos do ciclo de crédito somam-se ao desembolso de R$ 32,5 bilhões que os grandes bancos anteciparam ao FGC após o rombo do Banco Master.
O que observar
O patamar de provisões reflete dois vetores simultâneos: o ciclo de crédito deteriorado pela Selic elevada e o regime contábil de perda esperada, que antecipa reconhecimento de inadimplência. O ritmo de descompressão depende da velocidade com que as taxas de juros caírem e do nível de endividamento das famílias. Bancos com exposição concentrada no crédito rural e no segmento de varejo de massa são os mais expostos a novas rodadas de provisionamento.
Vale acompanhar três variáveis: a evolução do custo de crédito nos trimestres seguintes como sinal de inflexão do ciclo, a capacidade de recuperação de créditos baixados nas carteiras de agronegócio e a velocidade de convergência do indicador de inadimplência de PMEs, segmento que ainda absorve o fim de períodos de carência de programas emergenciais. Programas de renegociação governamentais têm impacto direto limitado para grandes bancos de varejo, mas ajudam a estabilizar a inadimplência marginal em carteiras de menor ticket.
Fontes: Investidor10 • Let’s Money • Let’s Money