Bancos britânicos vêm entregando ao Banco da Inglaterra um volume crescente de ativos de risco elevado, de empréstimos de cartão de loja a arrendamento de veículos. O estoque da faixa mais arriscada de garantias aceita pelo banco central passou de £ 8,7 bilhões para cerca de £ 17,8 bilhões em um ano, mostra levantamento da Reuters.
Garantias de Nível C no Banco da Inglaterra
Momento
Estoque vindo do ILTR
Meados de 2024
Menos de £ 1 bilhão
Um ano antes do levantamento
£ 8,7 bilhões
No levantamento (2 de setembro de 2026)
Cerca de £ 17,8 bilhões
Cálculos sobre os registros do banco central. Fonte: Reuters
O que entra na lista de garantias de maior risco
O salto apareceu no leilão semanal de 18 de agosto, quando os bancos entregaram £ 1,9 bilhão (US$ 2,6 bilhões) em garantias dessa faixa, o maior valor desde março de 2020 e o triplo da semana anterior, segundo a Reuters. A linha é o Indexed Long-Term Repo (ILTR), em que o banco central empresta reservas por seis meses contra a lista de garantias elegíveis.
Nível C é o nome que o Banco da Inglaterra dá à faixa menos líquida da lista, formada por securitizações e carteiras de empréstimos. Entre os ativos elegíveis estão notas lastreadas em cartões da NewDay, que a Fitch Ratings descreve como voltados a tomadores de maior risco, e títulos com pagamentos de hipotecas de imóveis comprados para aluguel. O banco central não detalha quais deles foram de fato usados como garantia.
A securitização de dívida hipotecária e de outros empréstimos foi um fator importante na crise de 2008, registra a Reuters, porque permitia ao credor repassar o risco adiante. A técnica segue corrente no crédito ao consumo, e fintechs a usam para financiar carteiras. Nota da S&P Global de 21 de agosto projetou inadimplência provável em quase um quinto dos empréstimos da plataforma Funding Circle que lastreiam outro papel elegível ao leilão.
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Uma consequência pretendida da retirada dos estímulos
O uso crescente da linha é, segundo a Reuters, consequência pretendida da decisão tomada em 2022 de reverter os £ 895 bilhões de afrouxamento quantitativo (QE, na sigla em inglês) feitos entre 2009 e 2021. Com menos caixa no sistema, os bancos voltam ao leilão por reservas. O Nível C respondeu por entre um quinto e um quarto das garantias aceitas no ILTR no último ano, mas o volume absoluto mais que dobrou.
O Banco Central Europeu (BCE) seguiu o caminho oposto e apertou os critérios de garantia aceitável, preocupado com o fato de que o carimbo de um banco central aumenta a demanda por papéis mais arriscados, que podem ser difíceis de vender numa crise. Em janeiro de 2026 excluiu na prática os papéis lastreados em arrendamentos com parcela final elevada, segundo leitura do escritório Jones Day citada pela Reuters. O Banco da Inglaterra cobra juro maior e aplica deságio mais alto sobre ativos arriscados. “Nossas linhas estão abertas para operar e saudamos o uso maior delas”, disse um porta-voz à Reuters.
“O Banco da Inglaterra tem boas razões para querer comprar ativos de grau C, mas há um risco de que, se fizerem demais, isso possa encorajar concessão de crédito ruim […] Acho que eles provavelmente já entendem isso”, afirmou William Allen, ex-chefe da divisão de mercados monetários do banco central e pesquisador visitante do National Institute of Economic and Social Research. A indústria global de crédito privado, de US$ 3,5 trilhões, atraiu escrutínio de reguladores, e o CEO do JPMorgan já previu perdas maiores na classe.
O que observar
A pergunta que fica é o que acontece com essas carteiras fora da janela do banco central. Se o apetite por crédito nos mercados privados seguir baixo, a linha de liquidez deixa de ser uma alternativa entre outras e vira o destino natural de ativos pouco líquidos. Vale acompanhar o deságio aplicado a cada faixa de garantia e o ritmo de rebaixamentos das agências de classificação de risco nessas carteiras.
A segunda frente é a divergência entre bancos centrais. Com uma autoridade monetária apertando critérios de elegibilidade e outra mantendo a porta aberta, bancos e gestoras ganham incentivo para alocar as carteiras menos líquidas onde elas são aceitas. Se essa arbitragem se confirmar, a discussão passa a ser sobre onde o risco se concentra.