O Banco do Brasil viu o lucro do primeiro semestre de 2026 encolher 34,2%, para R$ 7,3 bilhões. Por trás do número, uma inversão relevante: depois de mais de dois anos em que o agronegócio ditou a piora do crédito, foi a clientela de varejo que puxou a maior fatia dos novos atrasos de difícil recuperação entre abril e junho.
Esse patamar de retorno, de 7,9% ante os 12,6% de um ano atrás, mantém o banco na lanterna da rentabilidade entre as cinco maiores instituições do país. No mesmo intervalo, o ganho trimestral dos pares privados foi bem superior: 24,3% no Itaú Unibanco, 16,2% no Bradesco e 12,5% no Santander Brasil.
Pessoa física vira o novo foco de atenção
Na ponta do varejo, o quadro virou rápido. A inadimplência de longo prazo do público pessoa física chegou a 8,41% em junho, e a geração de crédito problemático nesse segmento mais que dobrou em apenas três meses. Na direção contrária, encolheu a fatia que o banco mantém reservada para cobrir cada real vencido, sinal de um colchão de provisões mais fino diante de um risco que sobe. O comparativo completo, incluindo os atrasos ainda iniciais, aparece no quadro a seguir.
Carteiras de varejo e agronegócio do BB, 1T26 x 2T26. Fonte: Bloomberg Línea
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Agro estabiliza nos atrasos longos, mas acende alerta no curto prazo
No agronegócio, o movimento foi oposto. Os atrasos mais longos praticamente pararam de subir e ficaram em 6,27% ao fim de junho, a geração de crédito problemático caiu pela segunda vez seguida e o nível de provisões voltou a engordar. O banco credita a virada ao aperto nas exigências de garantia no crédito rural. Os valores indicador a indicador estão no quadro acima.
O alerta mora no curto prazo. A inadimplência inicial do agro, na faixa de até 30 dias, voltou a subir e já supera o patamar dos atrasos longos, o tipo de sinal que costuma anteceder novos calotes. Outro termômetro reforça o desconforto: a fatia de vencimentos rurais quitados em dia caiu para 74% em julho, ante 87% no começo de 2026, o pior nível da série. No campo judicial, os produtores em recuperação passaram de 162 para 167 casos de um trimestre para o outro, somando R$ 1,45 bilhão.
Trimestre isolado dá alívio e guidance segue de pé
Olhado isoladamente, o segundo trimestre trouxe algum respiro. No período, o resultado chegou a R$ 3,9 bilhões, com leve alta na comparação anual, apoiado por uma margem financeira em recuperação e por um bom nível de eficiência operacional. “A geração de receitas segue sólida, evidenciando a capacidade negocial do banco, a força do conglomerado e o relacionamento próximo com os clientes”, destacou a instituição em nota.
Apesar da piora, o banco não mexeu no guidance. As metas de maio de 2026 seguem valendo, com o teto de lucro projetado em R$ 22 bilhões e o piso em R$ 18 bilhões no ano. O que chama atenção é o descompasso por carteira: a pessoa física cresceu menos do que o previsto, enquanto o agronegócio avançou acima do teto estipulado e o crédito a empresas encolheu. O banco também distribuiu R$ 584,9 milhões a acionistas via juros sobre capital próprio, com pagamento marcado para setembro.
O que observar
A virada no perfil da inadimplência de um banco público de grande porte muda a natureza do risco a ser monitorado. Quando o estresse migra do crédito rural para o varejo de pessoa física, o gatilho deixa de ser o ciclo de safra e passa a ser o orçamento das famílias, mais sensível a juros, emprego e endividamento. Vale acompanhar se a queda no índice de cobertura sinaliza apenas o esgotamento de um colchão de provisões ou uma nova rodada de deterioração, e se o avanço dos atrasos de curto prazo antecipa pressão adicional nos próximos trimestres, tanto no varejo quanto no agro.