O Banco Central elevou a inteligência artificial à categoria de risco sistêmico cibernético na ata do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef) divulgada nesta quarta. Segundo o regulador, os modelos atuais já têm capacidade de explorar vulnerabilidades tecnológicas do Sistema Financeiro Nacional, ainda que não haja evidência de ataques totalmente conduzidos por IA. O alerta vem junto a um pedido formal de cautela adicional no crédito, em meio a endividamento das famílias em nível historicamente elevado.
Frentes destacadas na ata
| Frente |
O que o BC observa |
| IA |
Pode explorar vulnerabilidades; sem ataques 100% por IA até agora |
| Crédito famílias |
Endividamento historicamente elevado e seguiu subindo |
| Modalidades caras |
Crescem mais e pressionam o comprometimento de renda |
| PJ |
PMEs desaceleram; grandes empresas reaceleram |
| Mercado de capitais |
Aquecido no 1T, leve desaceleração em abril |
| Global |
Condições “relativamente menos restritivas” desde março |
Síntese das frentes destacadas pela ata do Comef. Fonte: Valor
Por que a IA entrou na ata
A ata afirma que os avanços recentes de modelos de IA têm capacidade de explorar vulnerabilidades tecnológicas e ampliar riscos sistêmicos. O regulador diz que ainda não há registro de ataques totalmente conduzidos por IA, mas a aceleração das capacidades pode elevar o risco, sobretudo em função de “dependências comuns e da possibilidade de impacto em infraestrutura críticas do sistema financeiro”, afirmou o BC na ata. A resposta sugerida pelo Comef é intensificar a resiliência cibernética com foco em gestão de vulnerabilidades, desenvolvimento seguro e riscos de terceiros, e iniciativas coordenadas de avaliação e uso desses modelos.
O recado chega num momento em que o setor já roda IA em concessão, cobrança e atendimento, e em que o próprio BC vem testando aplicações internas. Ao mesmo tempo, a preocupação com infraestrutura crítica conversa diretamente com a discussão sobre concentração de provedores de nuvem e modelos de fundação, tema que reguladores globais também passaram a olhar.
Crédito desacelera, mas mercado de capitais aquece
No mesmo documento, o BC pediu cautela e diligência adicionais no mercado de crédito. O crédito bancário desacelera desde março, com o crescimento concentrado em modalidades de maior risco para famílias, ainda que em ritmo mais comportado. As provisões dos 4 maiores bancos somaram R$ 44,8 bilhões no 1T26, e o BC avalia que estão compatíveis com as perdas esperadas, com algumas instituições abaixo do ideal mas com capital suficiente para absorver ajustes.
No crédito a pessoa jurídica, a alta desacelerou para micro, pequenas e médias empresas, mas reacelerou para grandes. “Esse crescimento foi sustentado pelos programas de incentivo ao crédito. Para grandes empresas, houve reaceleração”, afirmou o BC na ata. O ponto conecta com a discussão sobre por que fintechs democratizaram o acesso a crédito sem destravar o spread: a entrada de público novo e mais arriscado puxa a média, mesmo com Selic em patamar contracionista. O mercado de capitais, por outro lado, segue em ritmo “bastante superior” ao do crédito bancário, com debêntures e notas promissórias liderando o avanço.
O que observar
A inclusão de IA como vetor de risco sistêmico abre frente regulatória nova. Vale acompanhar como o supervisor vai exigir gestão de modelos, log de decisões e governança de dados em bancos médios e fintechs, segmentos com equipes menores de risco cibernético. A discussão sobre dependência de poucos provedores de infraestrutura tende a entrar no radar de instituições que terceirizam treinamento e inferência para um único fornecedor de nuvem ou de modelo de fundação.
No lado de crédito, o ponto sensível é o efeito combinado de modalidades mais caras com endividamento já em pico histórico. Carteiras que escalaram via inclusão de baixa renda nos últimos quatro anos tendem a sentir mais cedo o aumento do comprometimento de renda. Reguladores podem aumentar a granularidade da exigência de provisão em modalidades específicas, e bandeiras e adquirentes carregam exposição via rotativo e parcelado quando a inadimplência se espalha. O ritmo de queda da Selic, que ainda nem começou, vira variável central para definir se o ciclo desemboca em provisão extra ou em alívio gradual.
Fontes: Valor • Banco Central