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RegulaçãoCrédito · Banco Central

BC e CVM fecham acordo de dados para vigiar FIDCs

Acordo amplia troca de informações sobre FIDCs, securitizadoras e outros agentes não bancários, num momento em que títulos privados já superam empréstimos bancários.

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Diego Grandi / Shutterstock.com

O Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários assinaram um acordo de cooperação técnica para ampliar a troca de informações sobre operações de crédito, com foco especial em FIDCs, securitizadoras e outros agentes não bancários. O movimento chega num momento em que o estoque de títulos privados já supera, pela primeira vez, o volume de empréstimos bancários tradicionais no Brasil.

O que muda com o acordo BC-CVM

Item Antes Com o acordo
FIDCs no SCR Envio desde 2012 Uniformização e qualificação dos dados
Securitizadoras Fora do repositório integrado Passam a compartilhar dados
Outros agentes CVM Visão fragmentada Integração ao repositório conjunto
Uso declarado Supervisão bancária central Decisões macroprudenciais BC e CVM

O acordo amplia o perímetro de vigilância sobre crédito não bancário. Fonte: Valor Econômico

Foco no crédito que escapou da vigilância bancária

O objetivo declarado, segundo o Banco Central, é “aprimorar o acompanhamento do mercado de crédito, sobretudo fora dos bancos”, fortalecendo a supervisão e subsidiando a formulação de políticas públicas de estabilidade financeira. A autoridade monetária lembra que os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) já enviam informações ao SCR desde 2012. O acordo assinado nesta segunda-feira uniformiza e amplia esse compartilhamento, passando a incluir também companhias securitizadoras e outros intermediários do mercado de capitais.

“A ampliação e o refinamento desse repositório contribuem para uma visão mais abrangente e integrada do endividamento de pessoas físicas e jurídicas, fortalecendo a capacidade analítica do Banco Central do Brasil e da Comissão de Valores Mobiliários na identificação, no monitoramento e na avaliação de riscos de crédito”, diz a nota do BC. O regulador também aponta que o fluxo pode reduzir assimetrias de informação e favorecer uma precificação mais adequada do risco, com efeitos potenciais sobre os custos de financiamento.

Um mercado que virou o outro lado da balança

O contexto do acordo é a mudança estrutural no financiamento brasileiro. O estoque de títulos privados, incluindo FIDCs, CRIs e CRAs, atingiu R$ 1,087 trilhão em junho de 2025 e superou pela primeira vez o volume de empréstimos bancários tradicionais, de R$ 1,082 trilhão, segundo dados do Banco Central compilados pela Rio Bravo. Só os FIDCs saltaram 38% no primeiro trimestre de 2026 e continuam puxando o mercado de dívida, com estoque que já ultrapassa R$ 820 bilhões, segundo dados da Uqbar, e perspectiva de cruzar R$ 1 trilhão ainda neste ano.

O risco embutido nesse crescimento já foi tema de debate no próprio mercado. Em entrevista ao podcast Let’s Money em 2025, Michel Rubin, da M8 Partners, alertou que “o maior inimigo do crédito é a alta liquidez, é onde você se obriga a ter que girar a carteira para conseguir pagar investidor”. Na ocasião, ele relatava o crescimento dos FIDCs de R$ 250 bilhões para R$ 810 bilhões em três anos e apontava que parte das gestoras começava a aceitar risco marginal para manter rendimento. O movimento atual de BC e CVM reconhece, institucionalmente, que essa massa de crédito precisa ser vigiada com o mesmo rigor aplicado à carteira bancária.

O acordo também se encaixa num momento de estresse regulatório sobre fundos estruturados. A CVM abriu processos após identificar que o Banco Master operava um esquema circular em fundos superavaliados, episódio que expôs as dificuldades de cruzar dados entre universos regulatórios distintos.

O que observar

Vale acompanhar como o acordo se traduz em exigências operacionais concretas para gestoras de FIDC, securitizadoras e administradores fiduciários. A uniformização de dados pode significar mais granularidade sobre devedor final, garantias, prazos e taxas, três camadas de informação que hoje circulam de forma desigual entre os veículos de crédito não bancário. Para estruturas menores e independentes, o custo de compliance tende a subir antes que o benefício apareça na forma de spread mais baixo para o tomador.

A pergunta que fica é se o BC e a CVM vão conseguir construir um repositório que fale com o mercado em tempo útil. Dados integrados só viram ferramenta macroprudencial se chegam ao radar antes do estresse, não depois. O teste será se essa infraestrutura consegue antecipar fragilidades em ciclos de alta liquidez, quando a concorrência por ativos pressiona gestoras a aceitar risco que não seria aceito em condições normais, e não apenas registrar o tamanho do estoque depois que ele cresce.

Fontes: Valor EconômicoLet’s Money Podcast: FIDCs, o boom de R$ 250 bi a R$ 810 bi

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