Manter e evoluir as ferramentas de IA na supervisão do sistema financeiro custa R$ 3,6 milhões por ano ao Banco Central, segundo dados obtidos pelo Valor via Lei de Acesso à Informação. O investimento sustenta a fiscalização de R$ 15 trilhões em ativos enquanto o quadro de servidores da autarquia segue encolhendo.
A supervisão do BC em números
| Indicador |
Valor |
| Custo anual com IA |
R$ 3,6 milhões |
| Ativos do Sistema Financeiro Nacional |
R$ 15 trilhões |
| Servidores do BC hoje |
3.302 (1.826 a menos que em 2006) |
| Time de supervisão |
De 1 mil para 600 servidores |
| Exposições de crédito analisadas pelo Adam |
3 milhões em 24 horas |
Dados de supervisão e IA do Banco Central. Fonte: Valor Econômico
As ferramentas de IA na supervisão
O sistema mais conhecido é o Adam, sigla para Amostragem Determinada por Aprendizado de Máquina, que ganhou força a partir de 2020. A ferramenta examina as carteiras de crédito das instituições supervisionadas e consegue analisar 3 milhões de exposições de clientes em 24 horas, trabalho que uma equipe de 10 servidores levaria 30 anos para concluir, segundo relatório do Banco de Compensações Internacionais (BIS) citado pela reportagem. O Adam também aparece em estudo do BIS sobre uso de IA por autoridades como exemplo de detecção de devedores de alta perda, que permite aos supervisores exigir provisionamento adicional.
O arsenal cresceu desde então. Em agosto de 2024, a autarquia criou o Centro de Excelência de Ciência de Dados e Inteligência Artificial. O ChatBC reúne agentes de IA para apoiar o trabalho interno dos servidores. A EVE automatiza relatórios de supervisão e comunicações às empresas em velocidade 200 vezes maior do que a de uma equipe humana, segundo o BC. Já o Axis apoia a análise de relatórios de auditoria e demonstrações financeiras das entidades supervisionadas e rendeu ao BC, em 2025, o prêmio de inovação da revista Global Finance na América Latina, além de reconhecimento no Gartner Eye on Innovation Awards 2025.
Menos servidores, mais dados
A aposta em tecnologia responde a um quadro que não para de encolher. O BC tem hoje 3.302 servidores, 1.826 a menos do que em 2006. Entre 2020 e 2026, o Departamento de Supervisão Bancária caiu de 159 para 135 pessoas. “Eu olho para um time de supervisão que tinha 1 mil servidores e agora tem 600, e com a possibilidade de mais 100 se aposentarem”, disse o diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino, em evento da Abipag em maio de 2026. Enquanto isso, o Departamento de Monitoramento do Sistema Financeiro, que faz uso intensivo de IA, manteve média superior a 180 funcionários nos últimos seis anos.
O presidente do BC, Gabriel Galípolo, defendeu a tecnologia em audiência da CPI do Crime Organizado em abril de 2026, ao tratar do caso do Banco Master. “A IA permite uma granularidade muito maior na supervisão, porque o Sistema Financeiro [Nacional] como um todo tem R$ 15 trilhões em ativos. Falamos em fraude de R$ 12 bilhões”, afirmou. Sob sua gestão, o BC fechou 17 instituições em sete meses. Galípolo também citou limitações decorrentes da falta de autonomia orçamentária e financeira da instituição.
O BC não divulga estatísticas sobre o uso de IA na identificação de irregularidades, para não expor estratégias de fiscalização. A autoridade pondera que não é adequado ligar diretamente uma ferramenta de IA à aplicação de sanções: “Eventuais medidas supervisoras ou sancionadoras decorrem de processos próprios, conduzidos pelas áreas competentes”. No Plano Diretor de Tecnologia da Informação de 2026 a 2029, a meta declarada é “aprimorar a capacidade analítica e fomentar o uso seguro de inteligência artificial no BC”. Entidades representativas dos bancos receberam bem o movimento, citando ganho de eficiência e leitura de anomalias em tempo quase real.
O que observar
A conta que fica é de escala: R$ 3,6 milhões por ano é um orçamento pequeno diante de R$ 15 trilhões em ativos supervisionados, e o próprio presidente da autarquia citou a falta de autonomia orçamentária como limitação. Com mais 100 aposentadorias no horizonte do time de supervisão, vale acompanhar se o ritmo de investimento em ferramentas internas acompanha a perda de gente ou se o regulador passa a depender de contratações externas de tecnologia.
Há também uma assimetria deliberada em jogo. Instituições supervisionadas não sabem o que a fiscalização baseada em dados enxerga, já que o regulador não divulga estatísticas de uso das ferramentas. Com autoridades de supervisão de outros países também incorporando esses recursos, a pergunta é como bancos, fintechs e cooperativas vão calibrar governança e compliance diante de um supervisor que enxerga cada vez mais sem mostrar o que enxerga.
Fontes: Valor Econômico • BIS • Global Finance