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BC prepara medidas contra crédito mais caro às famílias

Comitê do BC diz que prepara medidas contra as linhas de crédito mais caras e já corta de 45 para 7 dias úteis o atraso do histórico de crédito.

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Atualizado em

Diego Grandi / Shutterstock.com

O Banco Central avisou que prepara um pacote contra o crédito mais caro, a fatia da dívida que mais come o orçamento doméstico. O recado saiu no comunicado do Comef, comitê que cuida da estabilidade financeira no BC, publicado na quarta-feira (26), sem lista de medidas. No mesmo dia, o regulador encurtou para até sete dias úteis o prazo de atualização do histórico de crédito de cada cliente.

O retrato do endividamento que o BC levou ao palco

Indicador Número
Endividamento das famílias 49,8% da renda anual
Endividamento sem crédito imobiliário 31,1% da renda
Usuários de cartão com dívida 52,8 milhões, de 96 milhões no total
Juros do rotativo do cartão 15,1% ao mês
Consignado privado R$ 102 bilhões, alta de 145% em um ano
Crédito pessoal não consignado R$ 397,2 bilhões, alta de 188% desde 2020

Dados apresentados por Gabriel Galípolo na abertura da Febraban Tech 2026, em 24 de agosto de 2026. Fonte: InfoMoney

O que o BC sinalizou sobre o crédito mais caro

O comunicado não descreve nenhuma iniciativa. Diz que o cenário atual “requer cautela e diligência adicionais na concessão de crédito, tanto na qualidade dos empréstimos quanto no apetite ao risco”. O detalhamento fica para a ata, prevista para 2 de setembro. Na mesma sessão, o comitê manteve em 0% o adicional contracíclico de capital e classificou o sistema como preparado “para enfrentar a materialização de risco de crédito”.

O incômodo do regulador tem endereço conhecido. Dois dias antes, na abertura da Febraban Tech, o presidente do BC voltou a cobrar coerência de quem comemora a expansão da carteira. “Não dá para ficar contente com uma notícia de que o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento cresceu”, disse Gabriel Galípolo. Em julho, ele já apontava o crédito sem garantia como o ponto de maior risco no endividamento das famílias, e em abril de 2026 classificou o problema do cartão como estrutural.

Nada disso equivale a regra publicada. Segundo apuração do Valor, um caminho em estudo seria cobrar mais capital do emissor que concentrar oferta cara em cliente superendividado. Analistas do UBS BB listaram em relatório outras quatro alavancas: subir compulsórios, pesar mais o risco de determinadas carteiras, mexer no IOF ou acionar o adicional contracíclico.

O histórico de crédito passa a andar em sete dias

A decisão que já vale mexe no encanamento. O BC passou a exigir dos bancos e a disponibilizar dados mais tempestivos sobre operações de crédito, em cumprimento a norma de setembro de 2024, que obriga registro diário de cada concessão, cessão, portabilidade, parcela paga e liquidação. “Informações que anteriormente poderiam levar até 45 dias para serem disponibilizadas nas consultas passarão a ser atualizadas em até sete dias úteis”, informou o regulador. A lentidão do cadastro virou alvo de crítica na crise da Americanas, quando o mercado descobriu tarde que a varejista escondia dívidas financeiras acima de R$ 20 bilhões.

O pano de fundo é uma carteira que não desacelera. A carteira de crédito do sistema financeiro somava R$ 7,4 trilhões ao fim de junho, 9,7% acima do mesmo mês de 2025, e a inadimplência das famílias no crédito livre ficou em 7,6%. Entre as empresas, junho trouxe recorde de 9,1 milhões de CNPJs negativados. Na safra de resultados do 2º trimestre, os grandes bancos afirmaram estar migrando a pessoa física para linhas mais protegidas, movimento que as estatísticas do BC ainda não capturam.

O que observar

Se o caminho escolhido for capital, o custo recai de forma desigual. Emissores de cartão e fintechs de crédito sem garantia operam carteiras curtas, caras e concentradas em clientes já alavancados, o perfil que consumiria mais capital sob ponderação de risco mais dura. Bancos de varejo com funding barato e carteiras colateralizadas absorvem melhor. Vale acompanhar se a ata de setembro aponta para instrumento prudencial, para desenho de produto ou para os dois.

O outro fio é o do dado. Um cadastro com atraso de sete dias em vez de 45 muda o insumo de quem opera motor de decisão, de bureaus a plataformas de originação. A pergunta é se o efeito aparece primeiro como aprovação mais rápida para quem tem histórico limpo ou como corte de limite mais veloz para quem acabou de tomar a terceira linha cara no mês. Política de crédito calibrada em informação defasada terá de ser refeita.

Fontes: Valor EconômicoInfoMoneyPoder360Banco Central

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