O BNDES registrou lucro recorrente de R$ 3,1 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 17% ante igual período do ano anterior, e desembolsou R$ 36,2 bilhões no período, 44% acima do registrado no mesmo trimestre de 2025. Os ativos totais chegaram a R$ 995 bilhões, maior valor nominal da história da instituição.
Os desembolsos cresceram em todos os principais segmentos na comparação com o primeiro trimestre de 2025: indústria avançou 67% (R$ 8 bilhões), infraestrutura subiu 51% (R$ 13,4 bilhões) e agropecuária cresceu 40% (R$ 9,1 bilhões). As aprovações atingiram R$ 45,7 bilhões, alta de 37%, e as consultas, que sinalizam a demanda futura por crédito, chegaram a R$ 84,4 bilhões, salto de 65% na comparação anual.
“Consultas, aprovações e desembolsos cresceram fortemente, apesar de todos os desafios que tivemos nesse período”, afirmou Aloizio Mercadante, presidente do BNDES. Segundo Nelson Barbosa, diretor de planejamento da instituição, o banco pretende atingir, ainda em 2026, aprovações equivalentes a 2% do PIB. Barbosa ressaltou, porém, que dois terços dos financiamentos do banco estão atrelados a taxas de mercado, o que torna o volume sensível à política monetária: “O que significa que o banco é bem afetado pela política monetária.”
Carteira de participações avança R$ 75 bi desde 2022
A carteira de participações societárias do banco, administrada via BNDESPar, totalizou R$ 110,3 bilhões em março, alta de 27,7% em relação a dezembro de 2025. Alexandre Abreu, diretor financeiro e de mercado de capitais do BNDES, disse que a carteira valia R$ 62,7 bilhões quando a atual gestão assumiu, em 2022, e que a decisão de não vendê-la gerou retornos expressivos: “O fato de não ter queimado essa carteira em 2022 nos permitiu ganhar R$ 75 bilhões em três anos e um trimestre.” O retorno inclui R$ 27,4 bilhões recebidos em dividendos no período.
Mercadante destacou que o banco tem 56 projetos de mineração de terras raras em análise, com potencial de R$ 50 bilhões em investimentos. “O BNDES está saindo dos setores tradicionais para investir em novos setores, como minerais críticos e fertilizantes”, disse. O presidente também mencionou a atuação em casos de empresas com dificuldades financeiras: “A taxa de juros machucou muitas empresas. O BNDES tem trabalhado fortemente para evitar recuperações judiciais de empresas estratégicas.” A inadimplência da carteira do banco ficou em 0,046%, ante a inadimplência recorde de 4,2% registrada no sistema financeiro nacional em janeiro.
O que observar
A meta de aprovações equivalentes a 2% do PIB em 2026 está condicionada ao comportamento da Selic. Com dois terços da carteira atrelados a taxas de mercado, qualquer extensão do ciclo de aperto monetário comprime a demanda por financiamento, especialmente em infraestrutura e indústria. Vale acompanhar se o pipeline de consultas de R$ 84,4 bilhões se converte em aprovações no ritmo projetado no segundo semestre.
O salto de 27,7% na carteira de participações em um único trimestre levanta uma questão estrutural: em que medida o resultado recorde do banco reflete a valorização cíclica de ativos em setores de energia e commodities, e em que medida representa ganhos operacionais persistentes. Bancos de desenvolvimento com grandes portfólios acionários tendem a ter resultados mais voláteis do que os balanços trimestrais sugerem, dependendo do ciclo dos mercados onde atuam.