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Bradesco vê R$ 1 bi extra no lucro anual com IA

Uso de IA no crédito já rendeu pelo menos R$ 250 mi da Kunumi ao Bradesco e encurtou o tempo de análise no atacado de 10 para 3,3 dias, diz executivo.

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· 4 min

Atualizado em

Foto: Eduardo Frazão/Exame

O Bradesco estima que a inteligência artificial aplicada ao crédito já adiciona mais de R$ 1 bilhão ao lucro líquido anual do banco em relação a 2023, dos quais pelo menos R$ 250 milhões estão vinculados diretamente às entregas da Kunumi, a startup de IA comprada pelo grupo naquele ano.

Os números que o Bradesco atribui à IA no crédito

Indicador Resultado
Lucro anual extra estimado vs 2023 Mais de R$ 1 bilhão
Ganhos da primeira onda da Kunumi R$ 250 milhões
Time to yes no atacado De 10 dias para 3,3 dias
Construção de modelo de machine learning De 6 meses para 3 meses
Renegociação middle market automatizada 20% das propostas

Dados reportados por executivos do Bradesco. Fonte: Valor Econômico

O que a Kunumi entrega e por que o número sai da conta

A Kunumi é uma spin-off do Departamento de Ciência da Computação da UFMG, fundada em 2016 por Nívio Ziviani e Alberto Colares, e a compra pelo Bradesco foi anunciada em 2023, com a companhia mantendo operação autônoma dentro do grupo. A estrutura do negócio inclui cláusulas de earn-out, pagamento vinculado ao desempenho futuro dos ativos, o que obriga o banco a calcular separadamente o impacto das ferramentas. “Com o primeiro bloco de entregas da Kunumi que estão amadurecendo, a gente já vê um resultado de R$ 250 milhões”, disse ao Valor Rafael Cavalcanti, diretor de inteligência de dados e CRM do Bradesco.

A área de crédito separa a atuação em duas linhas: “AI powered”, para impulsionar processos que já existem, e “AI first”, para criar processos que só fazem sentido com IA no centro. “O nosso mote é muito fugir do hype e ir para a prática”, disse André Duarte Oliveira, membro do comitê executivo e responsável pela área. A frente ganhou equipe de IA dedicada no novo plano estratégico lançado há dois anos, e a aposta do grupo não é inédita: em março, a Bradesco Seguros venceu um desafio global da AWS com uma aplicação de IA generativa.

Do atacado ao middle market, a IA já decide em linha

No atacado, o time to yes, o tempo entre o cliente pedir crédito e o banco responder, caiu de dez para 3,3 dias. “Os próprios clientes sentiram que a gente está mais rápido. Ganhamos velocidade com segurança, porque a probabilidade de default dessas safras se reduziu e estabilizou em um patamar bem mais baixo que antes”, disse Oliveira ao Valor. A IA também faz clipping de notícias: “Se a gente detecta a notícia de um evento climático no interior de Goiás, isso nos gera um alerta para um analista de crédito que consegue avaliar e tomar uma decisão”, afirmou Cavalcanti.

No middle market, cerca de 20% das propostas de renegociação já são decididas automaticamente por modelos impulsionados por IA, e a tecnologia ajuda a identificar clientes em pré-inadimplência antes de concorrentes. “Quem chega primeiro consegue resolver melhor a vida do cliente e bebe água limpa, pode ficar com a melhor garantia”, disse Oliveira. Na cobrança do varejo, a IA monitora centenas de milhares de ligações de call center e sugere abordagens individualizadas para cada atendente renegociar com cada cliente. Dados sintéticos gerados por IA generativa começam a ser usados para estimar perfis de crédito em nichos em que o banco nunca emprestou, contornando limites de privacidade e base histórica.

Em entrevista ao podcast Let’s Money, um executivo da plataforma de crédito Avra resumiu a tese que o Bradesco agora aplica: “Crédito evoluiu muito pouco desde a década de 70, 80. A gente está acostumado a olhar uma foto daquela empresa em determinado momento do tempo”. A saída, no frame do podcast, é trocar a foto pelo filme, a trajetória futura que modelos de machine learning conseguem projetar a partir de múltiplas fontes. O movimento do Bradesco traduz essa tese em linha de balanço: o Itaú já opera mais de 1,3 mil modelos de IA, mas ainda não apresentou um número de impacto financeiro comparável.

O que observar

A pergunta que sobra é como reguladores vão auditar modelos que decidem sobre crédito a partir de dados sintéticos gerados por IA generativa. A base preserva privacidade no treinamento, mas cria um novo ponto de verificação: ela é fiel à distribuição real da população ou só à que a instituição já enxerga bem? Vale acompanhar como o regulador brasileiro vai exigir rastreabilidade dessa etapa, porque ela entra na explicabilidade que a LGPD e o marco regulatório de IA já demandam.

O outro ponto é competitivo. Se o diferencial passa a ser detectar e abordar o cliente primeiro, instituições sem IA no mesmo nível ficam com carteira pior em média, e a assimetria tende a se amplificar a cada trimestre. O custo de não investir em modelagem deixa de ser oportunidade perdida para virar perda ativa em default e garantia.

Fontes: Valor EconômicoUFMGLet’s MoneyLet’s Money Podcast

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