A Bull, fintech brasileira especializada em consignado privado, ampliou a parceria com a DM e agora mira R$ 1 bilhão em originação de crédito em 2026. A aposta surfa a explosão do Crédito do Trabalhador, programa que saltou de R$ 40,9 bilhões em fevereiro para R$ 71,1 bilhões em novembro do ano passado e já ultrapassou R$ 101 bilhões em janeiro de 2026, segundo o Ministério do Trabalho.
A operação da Bull em números
| Indicador |
Valor |
| Ticket médio |
R$ 3.159 |
| Taxa média |
4,91% ao mês |
| Prazo médio |
19 meses |
| Parceria DM (set/25 a hoje) |
R$ 7 mi originados, 1.300 contratos |
| Parceiros ativos |
10 clientes, incluindo Recarga Pay, Pefisa e NG.Cash |
| Pipeline |
+10 parceiros em fase avançada, previsão de 30 a 60 dias |
| Meta 2026 |
R$ 1 bilhão em originação |
A fintech aposta em replicar o modelo da DM para escalar no consignado privado. Fonte: Startups
A parceria com a DM como template de escala
Iniciada em setembro, a parceria com a DM, grupo de serviços financeiros especializado em gestão de crédito, começou em modo piloto e já formalizou mais de 1.300 contratos. Agora, o plano é ampliar a oferta para canais como lojas físicas e WhatsApp, distribuição que hoje concentra parte relevante do varejo de crédito no país. A meta da operação conjunta é alcançar R$ 200 milhões em 2026. “O que a gente vai fazer agora é ampliar a oferta do produto em todos os seus canais”, afirmou Juliana Freitas, CEO da Bull, em entrevista ao Startups.
O modelo divide o trabalho em duas frentes. A DM entra com a base de clientes e a força comercial. A Bull fica com a plataforma tecnológica, a integração com sistemas trabalhistas e a liberação dos recursos. O capital dos empréstimos vem de instituições financeiras parceiras, numa engenharia em que a fintech atua como infraestrutura e operação de crédito, e não como originadora com balanço próprio. A aposta é ganhar escala com menor inadimplência e taxas mais competitivas para o trabalhador CLT.
Um pipeline de 20 parceiros e concorrência acirrada
A Bull quer replicar a engenharia da DM em outras frentes. A fintech hoje tem cerca de 10 clientes ativos no formato, entre financeiras, varejistas com braço de crédito, fintechs e companhias de benefícios, entre elas NG.Cash, que comprou a licença de crédito da BizCapital para escalar suas próprias operações. Outros 10 parceiros estão em negociação avançada e devem entrar na base em 30 a 60 dias. “É um produto com taxas mais competitivas e mais previsibilidade, o que faz diferença para um público que ainda tem pouco acesso a crédito”, afirmou Leticia Mara, diretora de produtos da DM.
O movimento acontece num mercado que virou corrida. A Genial criou divisão dedicada ao consignado e mira a modalidade como motor de crescimento, o Agibank retomou originação depois de suspensão e reportou R$ 1 bilhão de lucro, e Caixa e Banco do Brasil concentraram inicialmente 85,9% das operações do programa, segundo dados do governo. A briga está em quem consegue oferecer escala via parceiros sem explodir inadimplência.
O risco que veio junto com o crescimento
O consignado privado cresceu rápido mas já mostra sinais de atrito. Os juros do consignado privado bateram recorde de 59,4% ao ano, patamar bem acima da taxa média de 3,07% ao mês praticada pelos grandes bancos no Crédito do Trabalhador, segundo dados do governo. O governo também quer avançar na regulamentação do FGTS como garantia adicional do consignado privado até junho, movimento que pode reduzir risco e destravar mais capital para fintechs como a Bull. A inadimplência, por outro lado, já aparece como ponto de atenção em algumas carteiras do programa, em um mercado em que a adoção ainda está nos primeiros 12 meses.
O que observar
O modelo B2B2C em que a fintech entrega infraestrutura e a marca parceira usa sua base própria tende a ser o formato vencedor nesta fase. Ele permite escala sem custo de aquisição direto e coloca a fintech como camada de compliance, tecnologia e operação. Vale acompanhar quanto dessas parcerias se sustenta quando a Selic começar a ceder, porque o diferencial de taxa da fintech contra o grande banco se comprime quando o custo de funding para todos cai. Nesse cenário, o vencedor é quem já tiver carteira colateralizada e canal de distribuição estabelecido.
A pergunta que fica é sobre a margem. Com ticket médio próximo de R$ 3.100 e taxa de quase 5% ao mês, a operação captura um público ainda subservido, mas também trabalha numa faixa em que o custo de inadimplência pesa rápido. Se o FGTS virar garantia adicional, parte desse risco sai da mesa e a taxa deve se comprimir, o que favorece quem consegue volume e pressiona quem depende de taxa alta para rodar. O teste real é se o modelo de parcerias vai sustentar originação de R$ 1 bilhão sem precisar assumir risco de crédito no próprio balanço.
Fontes: Startups • Ministério do Trabalho