A demanda das empresas por crédito acelerou mesmo com juros elevados: a busca cresceu 9,2% nos 12 meses até junho de 2026, acima dos 5,2% do ciclo anterior, segundo a Serasa Experian. O motor é capital de giro e fluxo de caixa, não investimento, e a inadimplência em alta já muda o comportamento de quem empresta.
Busca por crédito por porte de empresa
| Porte |
12 meses até jun/2026 |
12 meses até jun/2025 |
| Micro e pequenas |
+9,2% |
+5,3% |
| Médias |
+7,4% |
+1,5% |
| Grandes |
+7,8% |
-0,3% |
Dados da Serasa Experian. Fonte: Valor Econômico
Capital de giro sustenta a procura
O movimento destoa de ciclos anteriores de aperto monetário, quando a demanda por crédito desacelerava com a Selic elevada. “Mesmo com esse aperto monetário, a demanda seguiu”, disse Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian, ao Valor. Segundo ela, “isso revela a característica do momento que estamos vivendo, que é a de uma demanda por crédito associada às necessidades de capital de giro […] e não necessariamente a um crédito que vem por uma necessidade de investimento”.
A série já vinha aquecida: a demanda por crédito empresarial cresceu 9,8% em 2025, também puxada pelo caixa do dia a dia. O perfil da base ajuda a explicar: levantamento anterior da Serasa mostrou que 95,7% das PMEs têm limite estimado de crédito de até R$ 570 mil e que 41% apresentam perfil associado à demanda por capital de giro. No recorte por setor, na comparação entre junho de 2025 e junho de 2026, a agropecuária teve o maior avanço, de 14,8%, seguida por serviços (12,0%), indústria (4,1%) e comércio (2,1%).
Inadimplência muda o credor, não o inadimplente
A procura cresce mesmo com a carteira piorando. A inadimplência das empresas ficou em 3,19% em junho de 2026, acima dos 2,67% de junho de 2025, segundo dados do Banco Central citados pelo Valor. Entre micro, pequenas e médias empresas, o índice foi de 5,71%, ante 5% um ano antes; entre as grandes, passou de 0,40% para 0,66%. No universo da própria Serasa, a inadimplência de empresas bateu recorde de 9,1 milhões de CNPJs em junho.
“A inadimplência elevada muda o comportamento do credor, não do inadimplente. O credor fica mais criterioso na hora de conceder esse crédito para evitar a exposição a um risco maior da sua carteira”, afirmou Abdelmalack. Programas públicos com fundos garantidores, como Pronampe e ProCred360, têm sustentado as concessões às pequenas empresas. Para a economista, uma retomada mais consistente exige mais que cortes graduais da Selic: “A gente entende que uma mudança na tendência do mercado de crédito necessariamente passaria por uma precificação da curva de juros em um patamar muito inferior ao que a gente observa hoje.”
O que observar
O descolamento entre demanda aquecida e oferta mais criteriosa tende a apertar a seletividade: taxas de aprovação menores e garantias mais exigidas para micro, pequenas e médias empresas, justamente o segmento com inadimplência mais alta. Vale acompanhar se os programas públicos com fundos garantidores seguem como amortecedor dessa ponta ou se perdem fôlego fiscal, e como o BC, que reformulou as estatísticas de crédito a MPMEs, vai retratar essa seletividade nos próximos meses.
A pergunta que fica é de calendário: se a curva de juros só ceder de forma expressiva em 2027, credores privados, de bancos a fintechs de crédito, terão de decidir entre defender a carteira ou disputar uma demanda de giro que não para de crescer. O primeiro sinal virá dos indicadores de concessão do segundo semestre de 2026.
Fontes: Valor Econômico • InfoMoney