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Consignado privado passa R$ 100 bi com Itaú liderando

Consignado privado passou R$ 100 bi em março, alta de 142% em 12 meses. Itaú lidera com 20% do mercado enquanto DataPrev trava a portabilidade.

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· 4 min

Atualizado em

Foto de Towfiqu barbhuiya na Unsplash

A carteira de crédito consignado para trabalhadores do setor privado superou R$ 100 bilhões em março, alta de 142% em 12 meses, e os maiores bancos brasileiros aceleraram a disputa pelo segmento mesmo com pendências operacionais no DataPrev ainda sem resolução.

Consignado privado CLT: posição dos bancos (1T26)

Banco Carteira CLT Market share
Mercado total >R$ 100 bi (mar/26) +142% em 12 meses
Itaú (líder) R$ 19,5 bi ~20%
Caixa ~R$ 9 bi ~9%
Bradesco ~R$ 6,7 bi 6,6% (+43% a/a)
Consignado servidor público R$ 384 bi Referência de escala

Fontes: Banco Central (mar/2026) e teleconferências de resultados. Via Seu Dinheiro

Selic alta e garantia em folha reorientam a estratégia de crédito

Com a Selic elevada pressionando o custo de captação e a inadimplência no crédito pessoal sem garantia, os bancos reduziram exposição a cartão de crédito e ampliaram o apetite por linhas com colateral. “A Selic alta mudou a postura dos bancos, que estão diminuindo a exposição ao crédito pessoal sem garantia, como cartão de crédito, e dando importância para linhas em que o consumidor pode dar um ativo como garantia ou então para o consignado”, disse Maria Estela Ferraz de Campos, head de crédito da Integral Group.

O consignado privado opera com desconto direto em folha e prevê uso de parte do saldo do FGTS para amortizar a dívida em caso de demissão sem justa causa, dois mecanismos que reduzem a inadimplência estrutural do produto. O potencial de expansão é grande: o segmento público de servidores acumula R$ 384 bilhões, e o Brasil tem cerca de três vezes mais trabalhadores CLT que empregados públicos. Dados mais recentes apontam que a carteira já superou R$ 110 bilhões.

Itaú, Caixa e Bradesco: tamanhos e ritmos diferentes

O Itaú é o líder do segmento, com participação de pouco mais de 20% do mercado. A carteira saltou de cerca de R$ 12 bilhões antes do programa do governo para R$ 19,5 bilhões no primeiro trimestre de 2026. “Estamos crescendo com muita qualidade, nos clientes certos, naturalmente com uma visão de rentabilidade adequada”, disse Milton Maluhy Filho, presidente do banco, em teleconferência de resultados. A Caixa, que participou da elaboração do programa, ainda está em fase inicial de implementação: sua carteira CLT atingiu cerca de R$ 9 bilhões, ainda pequena frente ao saldo total de R$ 114,2 bilhões do consignado da instituição.

Marcos Brasiliano Rosa, VP de Finanças e Controladoria da Caixa, avalia que a disputa ocorrerá principalmente pelo lado das empresas: “bancos com uma carteira PJ maior estão alavancando mais o segmento.” No Bradesco, a proporção ainda é pequena (6% do portfólio consignado), mas cresceu 43% em 12 meses para R$ 6,7 bilhões, o equivalente a 6,6% do mercado total. Fintechs também operam no segmento: a QI Tech lançou uma infraestrutura de consignado as a service para originadores que não têm plataforma própria.

DataPrev, regulação e os limites ao crescimento

A aceleração do segmento esbarra em dois freios concretos. O primeiro é operacional: o DataPrev, sistema governamental que processa os contratos, ainda não oferece portabilidade entre bancos nem migração automática de contrato quando o trabalhador muda de emprego. Brasiliano disse que melhorias começaram a ser implementadas em maio e devem estar totalmente operacionais em setembro. O segundo é regulatório: no mês passado, o governo publicou portaria para coibir “taxas abusivas”, prevendo punições para juros que excedam uma taxa de referência do Ministério do Trabalho, e limitando o custo efetivo total (CET) das operações em plataformas digitais a um ponto percentual acima da taxa mensal.

Em março, o juro médio do consignado CLT estava em 56,8% ao ano (3,8% ao mês). Analistas da Fitch avaliam que as incertezas regulatórias e operacionais “têm implicado em múltiplas dificuldades para escalar o consignado privado” e alertam: “Caso persistam, estes desafios continuarão pressionando os custos dos juros, aumentando o conservadorismo dos originadores e reduzindo a eficiência do mercado.”

O que observar

O marco técnico mais próximo a acompanhar é setembro, quando o sistema governamental de processamento deve estar totalmente operacional com portabilidade e migração automática de contratos. Esse ponto é crítico porque, sem portabilidade, a troca de banco exige formalização de novo contrato, o que cria fricção suficiente para segurar a competição por preço e limitar o ganho de eficiência que justifica o modelo para o tomador. Se a portabilidade não funcionar até lá, o crescimento continuará concentrado em carteiras novas, e não na disputa por saldo existente.

No plano regulatório, a portaria de taxas cria um piso de incerteza para bancos que dependem de spreads maiores para cobrir o risco de originação em segmentos de menor renda. O debate entre distribuição via sistema próprio do governo (CTPS digital) e canais próprios das instituições financeiras ainda não está encerrado, e o resultado desse modelo de acesso vai determinar quem controla a relação com o cliente final. Bancos com maior penetração de conta corrente CLT partem com vantagem, mas a decisão regulatória sobre canais pode redistribuir o jogo.

Fontes: Seu Dinheiro

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