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Consignado privado recua após novo teto de juros

As concessões do novo consignado privado caíram após o teto de juros do Crédito do Trabalhador, mas o mercado diz que o teto não explica sozinho.

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· 4 min

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O aperto nas regras do Crédito do Trabalhador já esfriou o ritmo do consignado privado. Desde que o governo passou a limitar juros e o custo total dos empréstimos, as liberações para empregados de empresas privadas encolheram, ainda que o mercado enxergue nisso o efeito de vários vetores, não só do limite de preço.

Os números do Banco Central (BC), restritos ao setor privado, expõem a inflexão. Em março de 2026 as liberações cravaram o recorde da série; em maio de 2026, já sob a norma cheia, caíram para R$ 7,7 bi, menor marca do ano e leitura mais recente (veja no gráfico abaixo). O Ministério do Trabalho (MTE) contesta esse corte, que ignora o setor público: com celetistas de estatais somados, o governo enxerga R$ 12,48 bi em maio de 2026 e atribui o recuo do mês a uma pane na plataforma da Dataprev no fechamento do período.

Em vigor desde abril de 2026, a norma do MTE impede que o CET mensal, indicador que reúne juros e encargos, fique acima de 1 ponto percentual da taxa contratada, e também tabela multa, mora, tributos, seguro prestamista e demais cobranças. Na prática, o limite hoje beira 4,98% ao mês. A modalidade nasceu para levar crédito com garantia a quem estava fora dele e já passou de R$ 100 bilhões em carteira.

Por que o teto não explica tudo

Para Délber Lage, que dirige a SalaryFits, braço da Serasa Experian, o teto contribuiu, mas não é o único vetor. “É inegável que existe um componente de restrição criado pela medida de reduzir a taxa”, disse, ao mesmo tempo em que ressalvou ser “igualmente impróprio dizer que esse é o único fator”. Ele lista outras pressões: o custo de captação mais alto de instituições menores sob Selic elevada, a entrada de trabalhadores de renda mais baixa e perfil mais arriscado, e os desafios operacionais do novo fluxo.

O perfil de quem aderiu reforça a cautela. Pelo levantamento da Serasa sobre o primeiro ano do programa, três em cada quatro tomadores (74%) já carregavam pelo menos dois financiamentos em aberto; 78% tinham grande parte da renda travada em dívidas (acima de 81%); e 86% vinham da base da escala de score. No intervalo, os contratos mais que dobraram, mas o valor médio encolheu de R$ 8.600 para R$ 2.300, um tombo de 73%.

Concessões do consignado privado (setor privado, BC)
Março 2026 R$ 10,9 bi (pico da série)
Abril 2026 R$ 9,9 bi
Maio 2026 (1º mês sob a regra) R$ 7,7 bi

Concessões do novo consignado privado, dados do Banco Central (maio é o mês mais recente). Fonte: Valor Econômico

Risco de exclusão e o peso sobre fintechs

Jonatas Giovinazzo, diretor administrativo da Gooroo Crédito, avalia que a trava de preço esfriou o interesse dos credores pelos clientes de maior risco, caso de negativados e de quem trabalha em empresas pequenas. “O primeiro impacto dessa redução vem da exclusão. Então, esses perfis que tinham sido incluídos deixaram de ser atendidos”, afirmou. Arnaldo Braga, da gestora Neo Investimentos, teme que o produto encolha para os mais seguros: “Se o teto for rebaixado demais, vai se tornar uma linha elitista.” A casa projeta a carteira em torno de R$ 300 bi num horizonte de dois anos.

As entidades do setor apontam ainda inadimplência em alta, que chegou a 7,9% em maio, e gargalos operacionais, como a transferência de contrato quando o trabalhador troca de emprego. Leandro Vilain, CEO da ABBC, defende que a saída não passa pelo limite de taxas: “Qualquer tipo de regulação em cima de precificação, é porque algum mecanismo não está funcionando adequadamente.” O caminho apontado por bancos e fintechs combina correção operacional, redução da inadimplência e fortalecimento das garantias, como o uso do FGTS. ABBC, ABCD, ABFintechs e Febraban dizem manter diálogo com os reguladores, e a ABFintechs avalia que as fintechs, com custo de captação maior, são desproporcionalmente afetadas.

O que observar

O ponto central é se um limite de preço, imposto antes de o produto amadurecer, restringe a oferta justamente para os perfis que o programa havia incluído. Vale acompanhar se a queda das concessões se estende para além de maio, se a inadimplência da carteira estabiliza à medida que as estatísticas de risco ganham histórico, e se o reforço de garantias e a correção dos entraves operacionais permitem baixar juros sem excluir trabalhadores de menor renda. O desenho final dirá se a modalidade se democratiza ou vira crédito de poucos.

Fontes: Valor EconômicoJotaO Tempo

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