O aperto no crédito está empurrando as empresas brasileiras para as linhas de financiamento mais curtas do sistema bancário. O crédito de capital de giro com prazo de até um ano tomado por elas disparou 171,8% na primeira metade de 2026 sobre igual intervalo de 2025, uma alta que arredonda para 172%. Olhada como um todo, essa modalidade só cresceu com mais força uma vez desde que o Banco Central (BC) começou a acompanhá-la, em 2011: no choque de 2020. Os números foram compilados pelo Valor Econômico.
Capital de giro de curtíssimo prazo (1º semestre de 2026 vs 2025)
| Modalidade |
Variação |
| Total da linha |
+78,3% |
| Operações de até um ano |
+171,8% |
| Operações acima de um ano |
-9,4% |
Dados do Banco Central. Fonte: Valor Econômico
Por que as empresas correm para o giro curto
O movimento reflete um cenário de oferta apertada, dinheiro caro e faturamento em queda, com as companhias adiando investimentos de maior fôlego. Diante disso, muitas trocam o financiamento de prazo mais longo pelo giro de curtíssimo prazo, que cobre despesas correntes enquanto o custo do dinheiro segue elevado. Não por acaso, a busca por crédito das empresas seguiu em alta mesmo com a Selic pressionada. Segundo o Valor, “o capital de giro de até um ano está entre as mais caras” opções de crédito livre à disposição das companhias, o que faz do salto um retrato do aperto de caixa.
A segunda maior alta desde 2011
Dentro dessa linha, o comportamento foi desigual: as tomadas de prazo mais curto explodiram, enquanto os contratos com vencimento acima de doze meses caíram 9,4%, sinal de que as companhias encurtaram os prazos que conseguem contratar. No conjunto, a modalidade de curtíssimo prazo avançou 78,3% no semestre. Só houve alta mais intensa uma vez, na primeira metade de 2020, quando o choque da pandemia levou o indicador a subir 188,7%.
O apetite por prazos curtos é especialmente sensível entre as menores. Entre pequenas e médias empresas (PMEs), o giro segue como o principal uso do crédito disponível, como mostrou levantamento da Serasa sobre o crédito das PMEs. Quando a atividade desacelera e o caixa aperta, a linha curta vira a saída mais rápida, ainda que carregue uma das taxas mais altas do crédito livre.
O que observar
O ritmo do giro curto funciona como termômetro do caixa das empresas: quanto mais elas recorrem a prazos curtos e caros, maior o sinal de que a atividade e a geração de receita estão sob pressão. Vale acompanhar se uma eventual queda dos juros ao longo dos próximos trimestres devolve fôlego aos financiamentos mais longos, hoje em retração, e se bancos e fintechs de crédito ajustam suas ofertas ao apetite por linhas curtas. Para o setor, a concentração em prazos curtos tende a elevar a rotatividade das carteiras e a exigir mais atenção ao risco de refinanciamento, ponto a observar nos balanços das instituições financeiras nos próximos semestres.
Fontes: Valor Econômico • Let’s Money • Let’s Money