O Banco Central (BC) passou a abrir o crédito pessoal não consignado entre operações com e sem garantia, e o retrato é direto: quem toma sem garantia paga em média 142,7% ao ano, contra 26,3% de quem oferece algum lastro. E quase 70% do saldo dessa modalidade não tem garantia nenhuma.
Crédito pessoal não consignado (maio/2026)
| Recorte |
Saldo |
Taxa média (ao ano) |
| Sem garantia |
R$ 274,9 bi (68,7%) |
142,7% |
| Com garantia |
R$ 125,2 bi (31,3%) |
26,3% |
| Total |
R$ 400,1 bi |
120,4% |
Estatísticas de crédito de maio de 2026 do Banco Central. Fonte: Valor
O que a nova abertura mostra
A maior parte desse dinheiro sai sem lastro. Em maio, a modalidade somava R$ 400,1 bilhões, dos quais R$ 274,9 bilhões (68,7% do saldo) foram concedidos sem nenhuma garantia. Os contratos com algum lastro respondem pelos R$ 125,2 bilhões restantes, os outros 31,3%. O corte é inédito no relatório mensal e a série só existe a partir de novembro de 2025.
O que levou o BC a separar os dois grupos foi o tamanho do vão de preços: dentro da mesma modalidade, convivem contratos a 25% e a 140% ao ano. “Estatisticamente, comprovamos que mesmo as operações que não têm esse tipo de garantia [do consignado], mas têm alguma outra garantia, fazem com que as condições sejam melhores, a taxa de juros seja melhor”, disse Fernando Rocha, que comanda a área de estatísticas monetárias e de crédito do BC. É a mesma faxina de dados que já tinha levado a autoridade a detalhar o crédito às micro, pequenas e médias empresas.
Por que garantia muda o jogo
O crédito pessoal atende quem busca dinheiro sem destinação específica, diferente de financiar um carro ou um imóvel. No consignado, a parcela é descontada direto do contracheque de trabalhador, servidor ou aposentado, o que segura o juro. Fora do consignado, sem esse desconto em folha, o preço depende de o tomador oferecer outra garantia. Segundo o BC, os casos mais comuns são home equity, hipotecas e bens.
A diferença é grande: 142,7% ao ano sem lastro contra 26,3% com garantia. Somando os dois grupos, o não consignado cobrou 120,4% ao ano no mês, um recuo de 4,6 pontos frente a abril. Esse peso da garantia no preço ajuda a explicar por que o governo vem alargando os lastros aceitos, como ao liberar o FGTS como garantia do Crédito do Trabalhador.
O que observar
A abertura torna visível um prêmio de risco que estava diluído na média, e isso muda a conversa. Vale acompanhar se a maior transparência pressiona as taxas do crédito sem garantia para baixo, à medida que o tomador passa a enxergar quanto custa não oferecer lastro. Do lado da oferta, plataformas de crédito e estruturas de garantia ganham um argumento comercial mais nítido, sobretudo para o público que tem um imóvel ou bem para dar em contrapartida. A pergunta operacional é se a infraestrutura de portabilidade e comparação de propostas consegue transformar essa informação em migração real de contratos caros para arranjos mais baratos, ou se o gap de quase 70% sem garantia se mantém por inércia e falta de alternativa.
Fontes: Valor • Banco Central