A Visa firmou parceria com a _able e a Onafriq para levar o Flex Credential a mercados da África, do Oriente Médio e da Europa Central e Oriental: instituições participantes poderão oferecer crédito no pré-pago e no débito já emitidos, sem plástico novo. É o oposto da foto brasileira, onde o crédito cresce 11,4% e o pré-pago está praticamente parado.
Por que o crédito no pré-pago virou aposta fora do Brasil
O acordo anunciado nesta semana junta três camadas distintas. A Visa entra com o Flex Credential, tecnologia que permite ao emissor pendurar mais de uma fonte de recursos numa única credencial. A _able, sediada em Dubai e com operações em Nairóbi, Dar es Salaam e Pune, entra com a infraestrutura que habilita o crédito. A Onafriq processa os cartões pré-pagos elegíveis e conecta as instituições participantes à sua rede pan-africana.
O desenho ataca um descompasso específico: em boa parte dos mercados africanos, o cartão de débito e o pré-pago se espalharam rápido, mas o crédito formal não acompanhou. “A maioria dos consumidores nesta região já tem um cartão, e pouquíssimos conseguem acessar crédito por meio dele”, disse Jad Abbas, cofundador e CFO da _able. Godfrey Sullivan, vice-presidente sênior de produtos e soluções da Visa para a região, afirmou à Finextra que a companhia está “ajudando emissores a explorar novas formas de ampliar o acesso a serviços financeiros”.
A tecnologia não é nova. Ela estreou no Japão com o cartão Olive, do Sumitomo Mitsui, e em novembro de 2024 a Visa anunciou a expansão para os Estados Unidos e os Emirados Árabes. O que muda é o tipo de mercado: o alvo deixa de ser o consumidor bancarizado que alterna entre débito, crédito e pontos, e passa a ser quem já carrega um plástico mas nunca teve limite aprovado.
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O caminho inverso do cartão brasileiro
Brasil: para onde vai o volume de cartões
Função
Volume no 2º tri de 2026
Variação em 12 meses
Crédito
R$ 846,3 bilhões
+11,4%
Débito
R$ 245,6 bilhões
-1,2%
Pré-pago
R$ 96,8 bilhões
+0,2%
Volume transacionado com cartões no Brasil no segundo trimestre de 2026, dados da Abecs. Fonte: Diário do Comércio
No Brasil, a assimetria corre na direção contrária. Os cartões movimentaram R$ 1,2 trilhão no segundo trimestre, segundo a Abecs, e quem puxou foi o crédito. Aqui o problema do emissor não é levar limite a quem só tem função débito, é disputar espaço num mercado de crédito maduro e concentrado.
A promessa de acesso depende de uma etapa que o anúncio não resolve: quem carrega o risco. Habilitar crédito sobre uma credencial existente encurta o custo de emissão e de distribuição, mas não substitui originação, política de limite e cobrança. Vale acompanhar se os emissores participantes vão usar a infraestrutura para ampliar carteira ou apenas para migrar cliente que já tinha limite aprovado em outro produto.
O segundo ponto é operacional. Uma credencial com mais de uma fonte de recursos muda a régua de disputa entre bandeiras, processadoras e fintechs de crédito: o ponto de decisão sai da emissão e vai para o momento da compra. Se o arranjo escalar em mercados de baixa penetração, a pergunta é quanto do modelo se sustenta com inadimplência sob controle.