A Intercontinental Exchange (ICE), dona da Bolsa de Nova York, investiu mais US$ 600 milhões na Polymarket e totalizou quase US$ 2 bilhões alocados na plataforma de mercados de previsão. O aporte consolida a entrada das bolsas tradicionais num segmento que movimenta bilhões por mês e que o Brasil começa a regulamentar.
Timeline — ICE na Polymarket
| Data |
Movimento |
Valor |
| Out/2025 |
Investimento direto inicial |
US$ 1 bi |
| Mar/2026 |
Novo aporte em equity |
US$ 600 mi |
| Mar/2026 |
Compra de ações de sócios existentes |
até US$ 40 mi |
| Total |
Compromisso concluído |
~US$ 1,64 bi |
Fonte: ICE Investor Relations
Corrida bilionária nos mercados de previsão
O aporte de US$ 600 milhões faz parte de um acordo de investimento anunciado em outubro de 2025, quando a ICE aplicou US$ 1 bilhão na Polymarket. Com a nova rodada e a compra de até US$ 40 milhões em participações de sócios existentes, a operadora de bolsas concluiu seu compromisso de quase US$ 2 bilhões com a Polymarket, cujo fundador se tornou bilionário com o deal. Segundo a ICE, os investimentos não devem ter impacto material nos resultados financeiros da companhia.
A Polymarket não está sozinha na disputa. A rival Kalshi, regulada pela CFTC nos Estados Unidos, captou US$ 1 bilhão liderado pela Coatue Management e atingiu valuation de US$ 22 bilhões, o dobro de dezembro. A receita recorrente da Kalshi já alcança US$ 1,5 bilhão ao ano, com volume de negociação superior a US$ 10 bilhões apenas em fevereiro. O setor, porém, enfrenta escrutínio crescente: a Kalshi foi banida em Nevada e responde a mais de 20 processos sobre seu enquadramento legal.
O reflexo no Brasil
Enquanto ICE e Kalshi disputam a liderança global, o mercado brasileiro dá seus primeiros passos. A XP lançou contratos de previsão em parceria com a Kalshi, a primeira expansão internacional da plataforma americana, disponível para clientes da Clear Corretora com conta internacional. O BTG também entrou no segmento com sua plataforma de mercados preditivos, e a B3 confirmou o lançamento de contratos binários e de opções ligados ao Ibovespa, dólar, Bitcoin e Selic, em modelo centralizado sob regulação da CVM.
O enquadramento regulatório ainda está em construção. A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda conduz estudos preliminares, e operadoras de apostas licenciadas pediram ao governo, em reunião de 27 de fevereiro, que bloqueie Polymarket e Kalshi no país. A questão central permanece: mercados de previsão são derivativos financeiros regulados pela CVM ou apostas sob a jurisdição da SPA?
A movimentação da ICE vai além da Polymarket. No início de março, a operadora investiu na exchange de criptoativos OKX como parte de uma colaboração estratégica para licenciar preços spot e lançar contratos futuros regulados nos EUA. Em entrevista ao podcast Let’s Money em 2025, Sacamone, CEO da OKX no Brasil, já apontava que a regulação de criptoativos no país elevaria a barreira de entrada e favoreceria players maiores. A entrada da ICE como investidora da OKX confirma essa tendência de consolidação entre bolsas tradicionais e infraestrutura cripto.
O que observar
O ponto de atenção é a velocidade com que mercados de previsão estão migrando de produto nicho para classe de ativos disputada por bolsas centenárias. Com quase US$ 2 bilhões investidos pela dona da NYSE em uma única plataforma e valuations de US$ 22 bilhões em rivais, o segmento caminha para institucionalização acelerada. Para o Brasil, a questão operacional é dupla: definir se contratos preditivos ficam sob a CVM ou sob a SPA, e fazê-lo antes que a demanda dos investidores force uma regulamentação reativa. Plataformas que já operam via corretoras internacionais criam fato consumado enquanto a regulação local se estrutura.
Fontes: ICE Investor Relations • Finextra • Fortune • Yogonet • Let’s Money Podcast